As três “vidas” de um “Casulo” de pintura – Capitulo I – Primeira vida (1895 – 1933)
TóZéSilva 31 Agosto 2008
Segundo a minha perspectiva, o “Casulo” de Mestre Malhoa teve um percurso que se pode repartir em três fases distintas, a que eu chamo de “vidas”: a primeira entre 1895 e 1933; a segunda, entre 1933 e 1982; e a terceira entre 1982 até (Maio) de 2008. Uma nova vida (a quarta) está a iniciar-se, e que será a justa e merecida reconciliação entre a alma desse edificio e a fortuna patrimonial que ele verdadeiramente
representa para a região, cujo valor merece ser recompensado e plenamente vingado. Desta forma, proponho-me explicar em três artigos a saga existencial deste edificio peculiar, que passou as últimas sete décadas arredado num canto, esquecido e substimado nas suas potencialidades genuínas.
Capitulo I – Primeira vida do “Casulo” (1895 – 1933):
Posso afirmar com toda a segurança que foi em Figueiró dos Vinhos que José Vital Branco Malhoa começou a sua “odisseia rústica nacional”.
Sem ser um pintor ruralista dá-lhe para pintar as gentes do campo, como os cavadores, os malhadores, os semeadores, as ceifeiras, as apanhadeiras e vindimeiras, e que cenografam todo um mundo diferente, longe, burlesco e desconhecido, dos salões mundanos lisboetas. As sua retinas copiam o povo tal e qual como ele existe, desfiando um reportório de personagens reais e concretas, que emergem das cores e da luz que magistralmente mistura na paleta para a tela. Fá-lo-à neste canto da província, onde entre 1883 e 1933, veio a viver grande parte da sua vida criativa mas tambem intíma.
O “Casulo” era a base deste “caçador”, que calcorreava esta região à caça de motivos, do rústico, da alma gentia, ginasticando na paleta as aflorações da luz, do tempo e da natureza beirãs. Em dias de sol, Malhoa deixava o seu “Casulo” muito cedo: “Levanto-me às quatro e meia, arranjo-me, e às cinco e meia estou na rua com minha mulher: vamos para um grande maciço de carvalhos ver romper o dia, pinto, gozo, troco impressões com minha mulher. Venho almoçar, e depois pinto à sombra, na minha horta das dez à uma. Janto às duas, vou pintar até ao pôr-do-sol, e depois um grande passeio, conversar com os pastorzitos, entramos às oito e meia, e às nove…cama” (carta a Manuel Sousa Pinto em 1913). Ia por ali adiante, pelas encostas floridas e os vales profundos, em busca de motivos para instalar o cavalete, esquecendo-se das horas que passavam. Tinha o sol como relógio, tal como na faina dos campos, e regressava muitas vezes acompanhado pelos seus modelos campestres, já o sol se escondia para lá dos montes, para o “afago borralheiro do Casulo”.
Para dentro do “Casulo”, trazia os esboços e os apontamentos da força e da simplicidade das gentes do campo, com as suas alegrias, virilidades e sentimentos, que aprimorava nas telas, como companheiros do seu idílio provinciano e que pintava com a alma e com os olhos, como extensões das suas mãos.
Francisco Gabriel, modelo de Malhoa, natural da Lavandeira, dizia:“Quando vinha da escola, encontrava-o muitas vezes a pintar. E parava para estar ali a vê-lo, como faziam muitos rapazes e raparigas”.
A memória do pintor construiu-se assim, numa longa rotina ao longo de cerca de cinquenta anos, entre a sua constante presença humana e uma casa de fisionomia curiosa de cor de tijolo, numa dupla ligação que passou através das gerações, e cujo testemunho material manteve sempre vivo esse fio comunicador e cuja memória devolve o homem que a habitou, continuando a irradiar dela todos os discursos e símbolos que albergou, sobretudo quando se fala no pintor das gentes portuguesas.
A casa nomeia José Malhoa, delimita-o, combina-se com ele e articula-se no artista. Um e outro, mundo natural e ser humano excepcional, alimentaram-se mutuamente dentro daquele espaço edificado.
O “Casulo” de Malhoa, é um brasão patrimonial dos figueiroenses, cujo retorno ao seu convívio tem sido feito num percurso atribulado nos últimos setenta e cinco anos da sua vida, mas que se reergue sempre, teimando em repor tanto a memória, como o lugar real do pintor, da sua paleta e das superfícies das telas que ali fecundou.
O “Casulo”, foi o laboratório onde registou a história social dos campos, o traço típico do português anónimo mas genuíno, onde “reuniu” o povo Figueiroense e as paisagens desta região.
Perto das férias, em 1883, “Subia eu o Chiado e ao voltar para a então Rua de S. Francisco, hoje Rua Ivens, parei para acender um cigarro e esbarro com o colega Henrique Pinto que vinha da Academia de Belas-Artes. Expansões efusivas de camaradas, e o Pinto desafia-me a ir até Figueiró dos Vinhos, terra do nosso Mestre de desenho Simões D’Almeida (Tio), por quem fôramos várias vezes convidados. O Pintor descreveu-me a paisagem. Entusiasmado, combinei partir na companhia do amigo e colega. E…Figueiró cativou-me para o resto da vida” (Carta de Malhoa a Manuel Sousa Pinto, datada de 1913).
Em 1883 tornou-se Figueiroense de alma e coração e pintará com frequência nos seus quadros a paisagem local. Mal despontava a Primavera, entre esse ano de 1883 e o ano em que faleceu, em 1933, partia para Figueiró dos Vinhos onde se demorava até finais de Outubro, regressando a Lisboa pela época das “merendeiras”, que ele tanto apreciava. Em carta de 1913 dizia a um amigo: “Isto tudo quer dizer, que hoje faço quanto posso para estar longe dos homens…e das mulheres tambem! Trato de me afastar quanto posso da sociedade porque a conheço a fundo e sinto amargamente não poder fazer no resto dos meus dias o mesmo que agora aqui estou fazendo (em Figueiró), isto é, passar a vida entre minha mulher, a minha querida Arte, e a natureza, e…esta ainda às vezes me rala, porque quando necessito sol…chove!”.
Neste rincão provinciano passaria largas temporadas e que, nas epistolas aos amigos, confirmava serem os períodos mais felizes de toda a sua vida.
Inicialmente, guardava os seus apetrechos de pintura dentro de uma barraca de horta que pertencia ao farmacêutico da vila – Lopes Serra – e onde este recolhia os utensílios para a lavoura. Porém, Lopes Serra, homem sensível e dado às artes, pressentindo a grande fortuna memorial e o enorme prestigio que a presença do pintor podia trazer à terra, desafia-o a construir algo sólido e convidativo a permanências mais demoradas, inclusivamente, na companhia da esposa e família. Manuel Quaresma aliou-se ao gesto do conterrâneo e prestou-se a oferecer todas as madeiras necessárias para a construção da casa. José Malhoa não hesitou, e entusiasmado aceita o desafio, iniciando as obras em 1895.
Começa por construir, simplesmente, um atelier melhorado, num edifício com apenas 30.00m2 mas rodeado de luz e à volta do qual mandou plantar um grande número de hortenses (ainda existentes), que acentuavam a beleza e o colorido do local.
A “moradia” resumia-se, assim, “a uma pequeníssima casa rectangular apenas com uma divisão”, onde instalou uma “minúscula cozinha”, dividindo a sala com dois biombos, criando dois espaços e que serviam de sala de jantar/estar e quartos para ele e a sua irmã. “De tão pequeno que aquilo era, o pintor baptizou-o com o nome de «Casulo»”, porque aquele espaço representava o isolamento que ele tanto apreciava para o trabalho mais apurado, tal como o casulo é para o laborioso bicho-da-seda, e daí a razão do nome que deu ao seu atelier renovado.
Passados três anos, em 1898, decidiu ampliá-lo segundo um projecto que o arquitecto, e seu grande amigo, Ernesto Reynaud lhe propusera. Este encontrava-se em Figueiró dos Vinhos a dirigir as obras de reconstrução da Igreja Matriz. Malhoa, decide acrescentar ao atelier (o “Casulo” propriamente dito) mais um corpo com dois pisos. Sob a direcção do referido arquitecto, contrataram-se dois especialistas em construção: Júlio Soares Pinto, para a parte das alvenarias e cantarias, e Manuel Granada, perito em carpintarias. Assim, no corpo localizado a Sul ficaria o atelier, que se destinava sobretudo ao trabalho em dias chuvosos, provido com uma grande clarabóia de vidro e amplas portadas de ambos os lados que complementavam a entrada de luz natural. As paredes da sua nova sala de estar, revestiu-as a couro lavrado, com o seu próprio punho, e a ladear o tecto, colocou pequenos quadros, que incrustou em pequenos nichos, e cujos originais foram elaborados por alunos da Academia de Belas-Artes, num total de vinte e quatro pequenas telas. Esta sala era servida por uma bonita varanda alpendrada totalmente em madeira, sobranceira ao jardim onde se encontram as árvores, o lago, as sombras e as flores e, ainda, o “caramanchão das saborosas horas de repouso e lazer”. O seu quarto, no piso superior, era amplamente iluminado por três janelas, que lhe proporcionavam um panorama paisagístico incomparável: “Quando o Mestre subia ao seu quarto no 1º andar, demorava-se muitas vezes a olhar os montes, para além do Zêzere; o Cabril, a Bouçã; Cernache do Bonjardim, Lavandeira e Senhora da Confiança e a sua capelinha” (novamente o testemunho de Francisco Gabriel). No exterior do edifício, cujas paredes são rebocadas a imitar tijolo de burro, incrustaram-se valiosos painéis de azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro, que o artista trouxe da sua terra natal. Os azulejos têm motivos curiosos estando igualmente colocados no edifício segundo um esquema temático: a rodear a área de trabalho, os motivos são geométricos, com buris policromados a formarem ilusões florais interligadas; no rés-do-chão da área habitacional, os motivos são gatos pretos, talvez em alusão à noite e aos serões acesos repartidos com os amigos; ao nível do piso superior, os motivos são rãs sob nenúfares. No sótão, cujo polígono estrutural sobressai da cobertura como uma torre, os motivos são flores de lótus e estrelas (a fazer lembrar o símbolo da energia).
Quando o “Casulo” foi inaugurado, por volta de 1905, houve “festa rija” e foi acontecimento que se prolongou durante um dia inteiro. Tal acontecimento serviu ao inspirado maestro da Filarmónica Figueiroense, que aqui vivia, a composição de uma peça musical em homenagem a esse evento – “O Casulo” – e que existe nos arquivos da nossa Filarmónica Figueiroense.
Malhoa celebrará sempre a sua ligação afectiva a Figueiró, assinando os frequentes estudos, não só com a data, mas com a identificação do Local – “Fig. Vinhos” – e tambem com apontamentos nas folhas dos pequenos álbuns de desenho que sempre trazia no bolso, transportando o nome da vila, a sua paisagem, os costumes e tradições para além dos seus limites geográficos.
Desde o longínquo primeiro quadro pintado em Figueiró em 1883 – “O Perrecho” – que a produção artística aumentara em obras telúricas figueiroenses e que viriam a granjear-lhe a fama e o reconhecimento nacional da sua obra, tais como: “Viático ao Termo”, “As Papas”, “A volta da romaria”, “As Padeiras – Mercado em Figueiró”, “Os Bêbados – Festejando o S. Martinho”, “Varanda dos Rouxinóis”, “o Imigrante”, “Ai Credo”, “Vou ser mãe”, “As Promessas”, “Conversa com o vizinho” e muitos outros.
Em 26 de Outubro de 1933, José Malhoa falece no quarto do seu “Casulo”, vitimado por uma pneumonia. No seu atelier, sob o cavalete, permanecia uma tela que ia tomando forma. Vislumbrava-se um rosto grosseiro de uma velha camponesa, mulher do Ventura, que reflectia um rosto impregnado de sentimento humano, em que a dor e a saudade se misturam e concentram, com os olhos cansados, nariz afilado e boca descaída. Malhoa, para a pintar, contava-lhe histórias que a faziam chorar, a fim de captar as essências da sua alma, que expressassem “o desabar de uma vida que já não merecia ser vivida”. Julgo, que o próprio Malhoa, de setenta e oito anos, se revia neste retrato, de um homem que já fora um folgazão e alegre conversador, que recebera do mundo a glória, mas que no fim da etapa se encontrava isolado, solitário, “esperando da vida que a morte lhe estendesse a mão” (o seu grande amigo Henrique Pinto falecera em 1912, o irmão em 1917 e a esposa em 1919, facto que o mergulharia numa grande depressão de que só recuperaria plenamente a partir de 1926). Essa obra (a última da sua vida) ficaria para sempre inacabada e com ela terminava tambem a primeira “vida” do “Casulo”, que iniciaria um longo interregno patrimonial e que iria durar décadas.
Contarei a segunda vida do “Casulo” – e que se inscreve entre 1933 e 1982 – no próximo número deste Jornal.
Quando olho as paredes em ruínas das antigas Ferrarias da Foz de Alge, sinto admiração pelo nosso passado, quando procurávamos bastar-nos a nós próprios. Retirávamos da natureza tanto os nossos melhores produtos agrícolas e florestais, como os vários minérios com que alimentávamos o sonho da nossa independência económica, saídos dos recursos do nosso solo e subsolos portugueses. Foram esses mesmos recursos, em grande parte, que possibilitaram o nosso temperamento aventureiro e que nos levou a sulcar os oceanos, procurando muitas vezes em terras longínquas aquilo que tínhamos em nossa casa e cujo valor subestimávamos. Mas foi igualmente através deles que potenciámos a nossa tenacidade para expandir um pequeno país, que ousou tantas vezes surpreender o mundo.


Há cerca de duzentos anos, a Revolução Francesa (1789-1799), alargou o campo da política, estendendo-a ao alcance de todos os cidadãos e a todas as actividades, deixando de ser apenas apanágio de um grupo minoritário, intimamente ligado ao poder. A felicidade tornou-se numa noção clara e um direito do indivíduo, e o Estado assumia a responsabilidade pela manutenção dessa condição. A política tornou-se coisa de todos e polarizava-se como mais um instrumento do pleno humanismo social e que tornava o homem, cada vez mais, dono do seu próprio destino, donde irradiava toda a evolução do mundo. A “coisa pública” abria-se ao cidadão comum, e despia-se do secretismo que envolvia a administração do Estado.
A rua é o espaço público por excelência e pode ser ou não, complementada com praças, zonas de lazer, mobiliário urbano, etc. São fóruns de convívio, de mobilidade e comunicabilidade. Nelas também circula o espírito colectivo exercendo a sua plena cidadania. Para alem de serem espaços óbvios de circulação, são igualmente espaços de lazer, de encontro, de conversação mas também património a preservar ou a melhorar e que evoluem das necessidades decorrentes da evolução natural do homem.
Em 1900, chamava-se “Rua Visconde de S. Sebastião”. Nessa altura já era uma das principais artérias da vila. Depois, nos anos 40, passou a denominar-se Rua Dr. Manuel Simões Barreiros, em justa homenagem a este grande vulto figueiroense, mantendo esse nome até à actualidade. Começou por ser em terra batida, sem passeios, porque os carros eram raríssimos ou mesmo inexistentes na nossa vila. Nos anos 40 ganhou um esboço de passeios para os peões, começando a separar-se o que era espaço para pessoas e veículos. Os passeios ganharam mais visibilidade e foram melhorando ao longo das décadas seguintes. A Rua não parava de evoluir, recusava-se a ficar parada no tempo. No final dos anos 80 e inícios de 90, começou a perceber-se que os passeios se “tornavam” estreitos, porque aumentara o número dos que a utilizavam, acedia-se mais a ela, por esta ter conquistado a excelência comercial da terra. O trânsito também se tornara mais intenso. Adquirir um veículo democratizara-se plenamente. Hoje todos temos automóvel! A “velha” Rua, apresentava passeios de ambos os lados, estrada para os carros e estacionamento (apenas num lado), que começou a ser pago e com tempo limitado, a fim de evitar abusos e manter uma alternância equilibrada e justa entre os automobilistas. Mas era tudo muito apertado! A simbiótica viária da rua precisava uma vez mais de ser reajustada com o progresso. Rebentava pelas costuras! Assim, em 2007 a “velha” Rua entrou novamente em obras que a modificaram RADICALMENTE! Ficou mais bonita, agradável à vista, parece até mais larga, com uma aparência “moderna”, adequada aos tempos que se vivem à semelhança do que se vai fazendo noutras vilas e cidades. Ninguém negará ou contestará que ganhou em beleza estética. Contudo, algo não vai bem na “modernidade estética” da “velha” Rua! Com este mote, passo à questão fulcral deste artigo:
Todavia, dentro das regras estabelecidas também há lugar à tolerância e à compreensão para certos “infractores”. Por exemplo, ninguém estranhará se um comerciante dessa rua estacionar MOMENTANEAMENTE a sua viatura no passeio por necessidade da sua actividade profissional, ou que os seus fornecedores também o façam. Estamos numa terra onde todos se conhecem, e não numa grande cidade de gente anónima. Aliás, tenho muito respeito pelos nossos comerciantes, porque são sempre os primeiros a ceder nas mudanças, discutindo-as é certo, mas aceitando contribuir para tornar a vila diferente e original em relação às vilas que nos rodeiam, desde que a “modernização” se faça sem a descaracterizar.
Mais exemplos poderia apontar, mas estes chegam e sobram para concluir aos meus conterrâneos o seguinte: Quantos são os que vão habitualmente à biblioteca municipal? Quantos são os que, para alem do cinema, visitam as exposições, aplaudem as conferencias e o teatro na Casa da Cultura? Quantos são os que trocam o “shoping center” na cidade, por um passeio até à Foz de Alge com a família? Quantos são os que assiduamente frequentam a piscina municipal? Quantos são os que contribuem para “encher” as bancadas do Campo de Futebol novo? Quantos têm raquetes de ténis em casa? E já agora, quantos são os que estão preocupados com o destino do nosso “Casulo” de Malhoa?
O que foi que ficou de todas as escolas por onde passámos? Que frases ficaram inscritas no quadro, onde o giz serpenteava?
Quem pensar que a vila de Figueiró dos Vinhos não possui locais onde os seus conterrâneos possam ver testemunhos da sua história, pondo os olhos em ricas peças valiosas e de pôr todos de boca aberta, desengane-se! A vila tem uma mão cheia de locais que são pequenas galerias de arte, com testemunhos de gente valiosa que por cá andou, viveu ou passou. Acontece, que não estão abertas ao público mas somente acessíveis àqueles que possuem esses pequenos “museus” privados. De uma assentada, posso referir a que tipo de objectos me refiro: algum mobiliário, livros raros e valiosos, peças religiosas diversas (algumas em metal precioso), quadros de Malhoa, Henrique Pinto, Ramalho, Simões d’Almeida Júnior, cerâmicas, centenas de fotografias e postais raros de extrema curiosidade e importância, vestuário e trajes antigos, documentação variada e valiosa (alguma com alguns séculos), colecções de Jornais locais, filmes antigos, etc, etc. De quem é a propriedade disto tudo? Aqui também há um pouco de tudo. Vejamos: uns conseguiram as peças por oferta directa dos próprios autores, outros por herança ou doações familiares, por compra (despendendo algumas somas importantes para as obterem), por coleccionismo, de busca constante levada a cabo em feiras, alfarrabistas e antiquários e ainda outros por aquisição de imóveis de elevado interesse patrimonial juntamente com o seu recheio. Isto sem falar em instituições concelhias que também detêm espólio importante. Ninguém roubou nada! Todos são proprietários legítimos daquilo que possuem! A questão não é essa! Muito também eu podia falar do espólio (imenso espólio) que ao longo dos anos tem “sumido” daqui, levado para fora do nosso concelho. Algum dele estará para sempre fora do nosso alcance, numa sangria de valores patrimoniais que, infelizmente, corre o risco de continuar com o pouco que ainda vai sobrando por estas paragens. A culpa não é de quem detém esses objectos. É de quem nunca quis saber do seu significado e do potencial que representam para as suas terras. Já agora, podia igualmente referir-me a sítios de grande significado arqueológico (e da extrema importância informativa que possuíam), que foram sistematicamente destruídos ou danificados ao longo das décadas figueiroenses: vestígio de aldeias castrenses, caminhos romanos, as Ferrarias da Foz de Alge, etc. De referir igualmente, a recuperação mal dirigida a edifícios religiosos, onde imperou tudo, menos o espírito pela genuína e verdadeira preservação. (Não ficaria bem comigo próprio se não registasse aqui uma nota positiva no meio de todo este cenário, que foi a recuperação da aldeia de Casal S. Simão à qual a Câmara Municipal prestou apoio). Agora pergunto: existe ou existiu alguma vez na nossa terra, um sítio onde a história local pudesse ser depositada com confiança, legitimada na sua importância, enquadrada no seu real valor e que motivasse ao longo dos anos um voluntariado de partilha entre os nossos conterrâneos? NÃO! Nunca houve tal sítio! Então, como podíamos nós pedir a essa meia-dúzia de “privilegiados”, que detêm os seus objectos valiosos, para confiar os mesmos à comunidade de forma altruísta e genuína?! Assim sendo, esse espólio (que já foi maior e mais importante) irá continuar por aí, espalhado em casas particulares, a decorar paredes e móveis ou metido em arcas e caixotes a ganhar bolor, arredado do olhar do publico, que julga ter direito à sua história, entendendo-se que esta não é pertença de ninguém e que deve ser partilhada generosamente. Fiquem os meus conterrâneos convencidos de uma coisa: a nossa terra tem também um passado digno de mostra, de exposição pública, de reconhecimento regional, de fazer corar de orgulho toda a gente. Queríamos era ver o que só alguns podem ver: a peça religiosa, o livro antigo, o postal ou a foto de outrora, o quadro de tal pintor, etc. Mas como garantir aos seus proprietários a mesma devoção, carinho e valor que eles devotam às suas peças?! A quem podiam eles confiar os seus espólios patrimoniais? E para colocar onde? Razão têm eles quando pensam, que o melhor será continuar a serem eles próprios os fiéis depositários daquilo que possuem. Seria necessário edificar um local onde essas peças ficariam expostas de forma condigna e valorizada e que galvanizariam simultaneamente os seus proprietários.
A exemplo do que se fez em S. Miguel de Seide com a Casa Camilo Castelo Branco, onde se agregou um museu a um centro cultural moderno e ímpar no País, de belíssima arquitectura moderna e que hoje é o orgulho do município de Vila Nova de Famalicão. O que é que eles instalaram lá? Muito simplesmente, um local que atraiu em 2006 cerca de 24000 visitantes, nacionais e estrangeiros, promovendo concertos, colóquios, palestras, conferências, seminários temáticos, visitas guiadas, iniciativas pedagógicas dirigidas às escolas, etc. Imaginem um local como o Casulo de Malhoa, munido de um Centro de artes (ou Cultural e museológico) agregado ao seu edifício, com auditório, espaço polivalente, biblioteca de artes, salas de exposição, gabinetes de trabalho e atelier, oficinas de artes, etc! Seria a nossa casa comum, viveiro de ideias e de iniciativas, uma casa para todas as artes, uma autêntica indústria criativa, de conhecimento, ciência e cultura. Um núcleo destes podia-lhe ser agregado com um belo edifício e não tenho duvidas, que para alem de atrair os artistas e as artes de outrora, acolheria e atrairia também os de agora. Temos ou não artistas e artesãos de grande valor entre nós? Claro que temos! E muito têm eles para nos oferecer e ensinar! Hoje em dia, estes espaços têm uma função diferente, longe daquela ideia de serem locais silenciosos, chatos, com uma data de “coisas velhas” expostas, para visitar aos fins-de-semana com a família e pouco mais. Presentemente, são tidos como autênticos meios de comunicação e a sua intervenção não se resume às colecções que guardam e apresentam.
Há toda uma interferência actuante: valoriza os recursos locais, o património, os aspectos culturais, o turismo, apoia o ensino, fomenta o emprego e proporciona formação profissional. Estão voltados para as necessidades das comunidades onde se inserem. Participam na discussão e na busca de soluções dos problemas comunitários, interpretando-os e intervindo junto das populações, de forma questionadora, interventora e, sobretudo, independente, desde que haja um consórcio de vontades para enfrentar os problemas da nossa terra. Nunca será uma instituição supérflua, porque não actuará, jamais, à margem dos problemas e das dinâmicas locais. Pode possuir duas componentes: promoção interna e promoção externa. Na PROMOÇÃO INTERNA promoveria o bem estar material e imaterial da população da área onde se insere (o nosso concelho), através de estudos, exposições, história e dinâmica local, identificação territorial do concelho, diagnósticos e procura de soluções, criando um ambiente de dinamismo individual e colectivo, com acções de formação, etc. Na PROMOÇÃO EXTERNA, promoveria o potencial turístico local, o nosso comércio, divulgando apropriadamente as potencialidades da região com acções especificas e ligado a uma rede nacional, a fim de promover os nossos produtos locais e valorizando os de base tradicional, de forma permanente. Promoveria também os valores e a educação patrimonial, num amplo programa, interligado com outros organismos locais e dirigido tanto aos “de fora” como aos “de dentro”. Estes locais, para alem de estimularem a participação dos cidadãos e a consciência critica, estimulam a criatividade de cada um e unem as comunidades. São locais interdisciplinares. Que o digam os tipos de Vila Nova de Famalicão, a quem foi prestada atenção à sua força criadora, a quem foi dado o estimulo necessário para continuarem a criar, recusando a acomodação, valorizando o que de melhor possuem, para que não se perca, disperse, dando-lhes um lar que os acolha e que é o somatório das suas iniciativas individuais e colectivas. Já aqui o disse uma vez e repito, que é possível reforçar a cultura e o turismo como factores de desenvolvimento e de emprego e que para alem da sua óbvia componente divulgadora, de um concelho e de uma região, através de uma cultura feita por todos e para todos, poderá também agir como “chamariz” e despertar a curiosidade dos outros para nos virem conhecer. Mas para isso temos de construir juntos um enorme “cartaz”, para que possa ser visto ao longe e por muita gente. Um “cartaz” que diga: “Estamos aqui e vejam o que temos para vos oferecer. Sejam bem-vindos!”
Manuel Simões Barreiros era filho de um simples comerciante e nasceu em 1894 no lugar do Fontão Fundeiro, freguesia de Campelo. Aos 12 anos acompanhava o pai atrás de uma carroça, a comerciar por terras de Trás-os-Montes, vida que levou até aos 16 anos, altura em que se cansou de saborear essa existência dura, de saltimbanco de feira em feira, feita por caminhos inóspitos e rudes.
O silêncio, a omissão, a oclusão do “Centro Cultural de Figueiró dos Vinhos”, que teve “guarida” no chalet – “Casulo” de mestre José Malhoa, oferecem-nos argumentos polémicos pelo inexplicável da situação a que chegou tal história: primeiro, aos sócios legítimos daquela “Casa” e depois a TODOS os figueiroenses, que acreditavam ter no “Casulo de Malhoa”, algo que os projectava ainda e de alguma forma, para fora das portas do humilde burgo onde habitam.
Tratados, acordos, convenções, protocolos, tréguas, pactos, concordatas, cartas, concessões, bulas e uniões, é toda uma vasta parnefália de documentos do género, que existem desde que o homem se organizou em comunidades. Começaram por ser anunciados oralmente, gravados na pedra, no papiro, na cerâmica, no pergaminho, no papel e agora até em base digital.
O primeiro PDM do nosso concelho foi publicado no Diário da República em Fevereiro de 1995. Até essa data ninguém sabia o que era um PDM!