TóZé Silva Crónicas dum Tempo

A chinese lion statue

Olá a todos!

Que memórias colectivas têm os Figueiroenses mais presentes? Que identidade é que, conjuntamente, soubemos forjar ao longo dos tempos, dentro de um espaço comum e que temos como nosso? Quais são os nossos valores genuínos que nos fazem sentir como Figueiroenses e igualmente como Beirões? E a pergunta mais importante: que património (cultural, artístico, histórico, arqueológico, etnográfico, etc) possuímos e onde está ele, para testemunhar aquilo que somos? Este é um espaço onde se pretende reflectir, com serenidade, sobre estas e outras questões.

O TóZé foi ver o universo

07 Julho 2014

Infelizmente, este post destina-se a informar que o meu amado irmão TóZé Silva faleceu no dia 9 de Outubro de 2012.
No entanto, tudo farei para preservar este blogue e os maravilhosos artigos que ele colocou ao longo do tempo.
O TóZé era reconhecido por todos como uma pessoa muito sociável, amigo do seu amigo e uma mente brilhante, licenciado e mestrado em História. Com o seu desaparecimento, perdeu-se um notável comunicador e um grande historiador, que amava a sua terra natal, Figueiró dos Vinhos, e o seu país. Mas, acima de tudo, perdeu-se uma pessoa extraordinária!
E eu perdi o meu irmão para sempre. É uma solidão que nunca desaparecerá. Mas gosto de pensar que ele foi ver o universo antes de mim e que um dia nos voltaremos a encontrar.
Existe um livro que contém os artigos deste blogue e outros textos magníficos do TóZé, que poderá ser encontrado, por exemplo, em http://www.amazon.co.uk/Crónicas-dum-Tempo-Tûzè-silva/dp/1300327308
No entanto, se preferirem que seja enviado pela nossa livraria, basta enviar um mail para gerencia@booklandia.pt a solicitá-lo.

A todos, um bem-haja pela amizade que devotaram ao meu amado irmão TóZé, o melhor dos irmãos!
Rui Conceição Silva

Quinta das Lameiras – Figueiró dos Vinhos

16 Maio 2012

Pertenceu a Manuel dos Santos Abreu, que a herdou do pai, Manuel Abreu, cuja família a detinha desde meados do século XIX.
Manuel dos Santos Abreu continuou o trabalho das gerações anteriores, reforçando e ampliando a capacidade produtiva da quinta, tornando-a numa das maiores “casas agrícolas” da região. A quinta produzia essencialmente vinho, azeite, batata e cereais, e foi o sustentáculo económico de muitas famílias que ali se empregavam, normalmente à jorna, dinâmica que se manteve até 1940, data do falecimento de Manuel dos Santos Abreu. O filho mais velho, e herdeiro do património fundiário da família, José dos Santos Abreu, venderia a quinta em meados da década de 40, a um abastado proprietário agro-florestal do concelho, Ernesto de Araújo Lacerda, que daria continuidade à rentabilização económica da propriedade.
Coma morte deste, no inicio da década de 70, a quinta conheceu novo proprietário, João Simões Pereira, um dinâmico industrial ligado à redistribuição de combustíveis, em Lisboa e Figueiró dos Vinhos e onde possuía outra quinta, vocacionada para a produção bovina e caprina, encorpada com um complexo de base industrial, composto de um lagar de azeite e destilaria de aguardente.
Este novo proprietário deu nova feição produtiva à Quinta das Lameiras, substituindo a produção de base agrícola por plantação de tabaco.
Com a perda da importância económica da agricultura, os seus herdeiros acabariam por alugar a maior parte da área da Quinta a grandes empresas ligadas à industria da celulose e pasta de papel, que a transformaram numa imensa plantação florestal (com base no eucalipto) e que ainda hoje se mantém.
Actualmente a Quinta das Lameiras é propriedade de uma empresa, que centra a atenção para a sua urbanização, de índole turística.

A ligação da Quinta ao Pintor Manuel Henrique Pinto era de apenas de amizade, entre este e o proprietário à época, Manuel dos Santos Abreu. Henrique Pinto encontrava-se a veranear na Quinta, em Outubro de 1912, quando foi acometido da doença que o vitimou, tendo vindo a falecer naquele local. (Ver noticia de Jornal, patente no catálogo de exposição «Homenagem a Henrique Pinto – Exposição de Pintura», p.30).

(Imagem: pintura a óleo da autoria de Antonieta Alves, in «CÂMARA MUNICIPAL DE FIGUEIRÓ DOS VINHOS. GADEL – Ao encontro da natureza», catálogo de colectiva de pintura. Figueiró dos Vinhos, Câmara Municipal, GADEL, 2000.)

Consultar também os seguintes livros:
– MEDEIROS, Carlos, «Lenda do Penedo da Trombeta (Porto Douro)», Figueiró dos Vinhos Terra de Sonho, CMFV, 2001, pp. 224-225
– PORTELA, Miguel, LUCAS, Margarida Herdade, A Quinta dos Paivas ou do Ribeiro Travesso, 2011, p.6 (nota de rodapé nº9).

Um poeta que canta um povo («A Epopeia Maubere»)

10 Maio 2012

(Apresentação do livro de Alcides Martins, que tive a honra de levar a efeito na Universidade Sénior de Figueiró dos Vinhos)

De onde vem e como se define a identidade de um povo? Sobretudo, de um povo de existência “obscura”, perdido nos confins do sudeste asiático, no meio de uma miríade de ilhéus, que forma a península da “Insulindia”.
Que povo é este, até há pouco tempo anónimo, desconhecido, sufocado por uma nação poderosa?
«TIMOR» é uma denominação de origem malaia, que significa «ORIENTE».
No dia 10 de Fevereiro, na Universidade Sénior de Figueiró dos Vinhos, perante uma sala repleta de assistentes, foi dia de falar da parte leste da ilha de Timor, onde vive um povo chamado «MAUBERE», porque um poeta assim o idealizou, num pequeno livro, ao longo de 85 versos.
«A Epopeia Maubere» foi o título que lhe deu. Mas o que é uma “epopeia”? É um conjunto de acontecimentos históricos narrados em verso, num longo poema, que pode não representar os acontecimentos com fidelidade, porém, relata factos com relevante conceito moral e actos heróicos, transcorridos durante guerras, ou relativos a fenómenos históricos, lendários ou míticos e que são representantes de uma determinada cultura.
A História de um povo pode ser contada assim, em verso? Sim, porque a História também pode ser considerada uma narrativa, aliás, a narrativa é vista como a essência da História. E neste caso (deste livro), História e Conto interligam-se.
Alcides Martins é simultaneamente, na obra que escreveu, poeta, filósofo e historiador de factos concretos: relata acontecimentos históricos; dá-lhes primazia; privilegia o papel de uma dada comunidade, isto é, fala dos Homens e dos factos por eles vividos. É sem dúvida uma narrativa impregnada de forte pendor humanista.
Podemos apontar exemplos de Histórias narradas sob a forma de epopeias, isto é, em verso, em poema: «A Ilíada» e a «Odisseia» de Homero, (relatos em torno da guerra de Tróia e dos seus heróis milenares); «Os Lusíadas» de Camões, (que cantam a descoberta da Índia e onde são descritos episódios da História de Portugal, em glória do seu povo); «Pátria» de Guerra Junqueiro, (que critica a situação de Portugal no final do século XIX); «Mensagem» de Fernando Pessoa, (que trata do glorioso passado de Portugal). E agora este “livrinho”, a «Epopeia Maubere». Mas quem é o povo maubere?
«Maubere» é uma palavra (Tetum) que não define uma etnia, uma raça mas sim uma sociedade constituída por 16 grupos étnicos, num imenso mosaico linguístico e cultural. Isto é, não há um tipo de timorense homogéneo. O povo de Timor é um universo constituído pela diversidade étnica. Durante quatro séculos o elemento colonizador português congregou os vários “povos” timorenses, protegendo e defendendo a identidade étnica, cultural e politica de Timor Leste, mediante 3 pólos aglutinadores: a pela religião católica; pelo culto à bandeira portuguesa e pela língua portuguesa.
É, portanto, um povo com uma existência ancestral.
Alcides Martins traça a parte histórica mais dolorosa vivida por esse povo, num território mártir, que ganhou o respeito do mundo, ao conduzir durante 25 anos, uma luta desigual contra o gigante Indonésio, que teve de desistir dos seus propósitos de conquistar um povo indomável. Mas como começa a história deste povo contada poir Alcides Martins? “Era um território imaculado. De crocodilos e mansos ribeiros. Um povo que vivia o seu fado, golpes de liberdade eram certeiros.”
Esta é uma história, uma obra épica dedicada ao povo de Timor (povo Maubere), onde as figuras da tenacidade, da fé pela vitória, da luta convicta, do desejo arrebatador de liberdade estão presentes. Mas é também uma história de sofrimento, de desespero, de medo, a par com a morte e a vontade de sobrevivência, que se desprendem ao longo dos 85 versos que compõem esta narrativa; como portadora de uma mensagem que pretende despoletar no leitor, ou no ouvinte, um misto de solidariedade, de comoção e de sensibilidade, a par com os factos que relata. Está tudo no seu livro: a invasão da Indonésia em 1975; as sucessivas repressões sobre o povo timorense; a redução trágica da população (acredita-se que durante a ocupação Indonésia, entre 1975 e 1999, foram dizimados cerca de 200.000 timorenses, ou seja, um genocídio que ceifou 1/3 da população; o isolamento deste povo e do seu sofrimento face ao exterior; o massacre no cemitério de Díli; a intervenção da ONU no território; a prisão de Xanana Gusmão e a sua condenação à morte; o referendo de 1999 e que endureceu os massacres por uma Indonésia frustrada e despeitada; a ajuda do estrangeiro, os cordões humanos que se formaram, os donativos que se iniciaram, as camisolas brancas que se vestiram; a alvorada da tão desejada liberdade e a independência; o inicio da reconstrução de um país devastado pela guerra e a sua capacidade para perdoar aos antigos carrascos.
Ao longo do livro sente-se a presença, a solidariedade da Lusitanidade mas também da humilde terra de Figueiró dos Vinhos, que não quis ficar de fora do imenso cordão que abraçou o mundo em prol da causa deste povo (“No belo Figueiró, terra de vinhos, Bandeira de Timor esteve hasteada”).
No final, a fechar a epopeia, a dedicatória carinhosa aos seus pais, num verso de profunda nostalgia e comoção (“Dedico esta humilde epopeia, Aos meus extintos pais que estão no céu”).
É preciso recordar aos povos aquilo que eles mais gostariam de esquecer. Essa é uma das funções dos “recordadores”, daqueles que se dedicam à memória histórica.
Timor Leste («Timor Loro Sae»: que à letra significa “Sol Nascente”) é um exemplo de tenacidade inquebrantável. É uma nação plural, tropical, jovem, católica e que também fala a língua portuguesa.
O poeta teve esse carinho, o carinho de um figueiroense, que a milhares de quilómetros de distância deste povo, que traz no coração, canta-o, justiça-o, reconhece-o universalmente, para que a História não seja apenas constituída por pedaços de memórias perdidas, desligadas, pela bruma dos tempos. Ele prova, através deste livro, que para além da memória oficial de um povo, existe a memória e os sentimentos de cada um de nós, que não deixam cair por terra o fio contínuo da memória e da história das sociedades.

OS NOMES DA FÉ

18 Março 2012

Na Páscoa, no Jornal «A Comarca», sairá um caderno especial da minha autoria sobre as 5 religiões mais importantes do mundo: Cristianismo, Islão, Hinduísmo, Judaísmo e Budismo.
Como surgiram? Quem foram os seus fundadores? Quais são os seus principios mais importantes? Como se caracterizam e estruturam? Quais são os livros ou códigos fundamentais onde se baseiam? Quem os escreveu? Quem as representa junto dos crentes? Quantos seguidores têm e onde se localizam? Etc…
O caderno especial, intitulado «Os nomes da Fé», resulta de um ciclo de palestras realizadas em Outubro do ano passado na Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos («Encontro de Religiões-Encontro de Culturas»)e nas quais tive a honra de participar.

NO TRILHO DO PATRIMÓNIO CULTURAL – ESPAÇOS DO SAGRADO

26 Fevereiro 2012

Na continuação do programa “Espaços do Sagrado”, a Al-Baiäz – Associação de Defesa do Património visitou, no dia 21 de Janeiro, o Convento de Nossa Senhora do Carmo, em Figueiró dos Vinhos. O objectivo desta Associação é dar a conhecer o património de vertente religiosa dos concelhos do norte do distrito de Leiria, a fim de o valorizar e realçar as suas mais-valias em termos históricos, arquitectónicos e culturais e contribuir para fomentar a importância da sua riqueza patrimonial, como contributo potencial para o desenvolvimento turístico da região.
Nesta visita ao Convento do Carmo estiveram presentes cerca de três dezenas de pessoas (o numero de inscrições estava limitado a 25 participantes/visitantes).
Recorde-se que o Convento foi fundado em 1598 por D. Pedro de Alcáçova de Vasconcelos, senhor de Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, destinando-se a albergar uma comunidade de Carmelitas Descalços. A sua construção teve inicio em 1601 e prolongou-se até meados dessa centúria. Está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1996.
Nesta visita tive a honra de ser convidado pela Associação «Al-Baiaz» para guiar os visitantes que vieram de vários concelhos do distrito de Leiria. De entre os visitantes estiveram também presentes o Eng.º Miguel Portela e a Dr.ª Margarida Lucas, que convidei para disponibilizarem informações adicionais acerca do monumento.
Comecei por fazer um enquadramento histórico, cultural e patrimonial de Figueiró dos Vinhos na época da fundação do Convento e da importância destas unidades religiosas para a dinâmica cultural e, consequentemente, para o fortalecimento da Igreja Católica, sobretudo num período de forte contracção dos seus valores espirituais.
Já no interior da igreja apresentei uma planta do complexo edificado do Convento, que incluía não só a Igreja (dedicada a Nossa Senhora do Carmo) mas também da parte dedicada à vida quotidiana dos frades que aqui se albergavam (dormitórios, refeitório, cozinha, hospedaria, biblioteca, salas do colégio de artes, sala do capitulo, anexos agrícolas, etc) e que resultou de uma investigação criptográfica que realizei às dependências do conjunto edificado, baseado em vários levantamentos topográficos, em documentação antiga e em obras já publicadas sobre o Convento. Infelizmente grande parte do complexo extra-religioso não está visitável por se encontrar na posse de privados e em avançado estado de degradação.
Expliquei igualmente as várias fases de construção tanto do templo religioso como das suas dependências; da vida e obra dos Carmelitas descalços (em particular, do importante Colégio de Artes); do património edificado; dos magníficos retábulos/altares em talha dourada; das suas esculturas, e do significado que os artistas do Barroco (escultores, imaginários, ensambladores, marceneiros, douradores, pintores, etc) tiveram na catequização da grande massa de fiéis analfabetos e iletrados, ao criarem dentro dos templos um mundo fascinante e místico de matizes douradas, transferindo o aparato, o requinte, refinamento e riqueza, teatralidade, emotividade, fulgor e drama, numa ampla cenografia de intensa animação imagética, de santos fascinantemente humanizados, objectivando transformar estes espaços do sagrado em portas de passagem para o reino dos céus e que o cheiro das velas votivas reforçava no coração dos crentes.

Foi há 50 anos que o inferno passou pelo Vale do Rio – Parte I

05 Dezembro 2011


Naquela segunda-feira, dia 28 de Agosto de 1961, perto das 11 horas da manhã, José Simões andava a “renovar” pinheiros no Casal de Alge, quando um homem (João Almeida) apareceu junto de si “espavorido”, de sacho às costa, a avisá-lo de que o inferno subia a serra rumo ao Vale do Rio. Alarmado, José Simões pensou na mulher, nos filhos e na casa e calcorreou carreiros e atalhos para salvar o que humildemente lhe pertencia. Alcançou a aldeia perto do meio-dia, encontrando um ambiente tresloucado e de pânico generalizado. O fogo já andava atrás da serra a poente da povoação. As hortas envolventes já ardiam sob a chuva de fagulhas que desciam do céu vermelho escuro. Sentiu nesse dia que o destino o castigava, quando pouco tempo depois, olhou em redor das serranias, transformadas em cumes de fogo.
Entrou na casa e agarrou na esposa (Maria Jacinta da Silva), nos dois filhos (um com 2 meses e outro com 1 ano) e numa mala cheia de roupa, e levou-os para dentro de uma mina, localizada na aldeia. Deixou-lhes um presunto e uma broa para não passarem fome, enquanto o inferno rugisse uns metros acima deles. Esse refúgio foi-o de muita gente, um túnel escuro com mais de 50m de comprimento e com água que “dava pelos joelhos” e que José Simões e os vizinhos esgotaram, à força de cântaros, carregando-os ladeira acima, aspergindo portas e janelas das suas casas, que já escorriam resina, derretida sobre o calor abrasador e sufocante que abraçava a humilde povoação. O gado morreu carbonizado dentro dos currais, ainda soltou o porco mas acabou por morrer na fuga, encosta abaixo em direcção ao rio.
José Simões tinha 32 anos quando viveu a experiência mais terrível da sua vida. Passados 50 anos, quando lhe perguntei sobre estas recordações, os olhos faiscaram, e lançando a cabeça levemente para trás, disse-me: “Se me lembro desse incêndio, ai se me lembro!”. Por entre as suas memórias adormecidas e que eu desafiara a acordar, ia soltando laivos conciliadores com o tempo, pensando mais consigo próprio do que para com o entrevistador: “Nesse dia vi pessoas que não se falavam havia anos, a darem água a beber uma às outras, naquelas horas de aflição!”
Há 50 anos aquele dia de Agosto amanhecera quente, de tal forma, que ao meio-dia já o calor sufocava a vila de Figueiró dos Vinhos, eclodindo um incêndio em Aldeia de Ana de Aviz, que os Bombeiros prontamente extinguiram.
A hora do almoço avança e no horizonte, a sul da vila, torna-se visível um grande incêndio que lavra lá para os lados de Cernache do Bonjardim, envolvendo os cabeços que rodeiam Santa Maria Madalena. Contudo, era longe e havia também o Rio Zêzere que servia de corta-fogo natural, factos que tranquilizavam as gentes figueiroenses.
Por volta das 14 horas a sirene alerta para um novo incêndio que desta vez rebenta na serra de S. Neutel, nos arredores da povoação de Cabeças. O sinistro toma proporções alarmantes e rapidamente faz o céu ficar escuro, fazendo desaparecer o sol. A tarde avança e começam a chegar à vila mensageiros vindos do Carapinhal e dos Chãos, que anunciavam a eminência da destruição das primeiras casas, prestes a serem engolidas pelo fogo. O pânico instalou-se e generalizou-se quando os sinos da Igreja Matriz tocam a rebate. O trabalho na vila parou, fecharam-se os estabelecimentos e abandonou-se o trabalho nas fábricas. Os turistas hospedados no Hotel Terrabela debandam para longe da vila. Todos procuravam acorrer à zona atingida pelo incêndio, que assumia proporções dantescas. O executivo municipal multiplicava esforços para conseguir o apoio de meios militares e de outras corporações de Bombeiros. A praça do município foi transformada em centro de operações, com a presença de várias autoridades civis e militares, entre elas o próprio Governador Civil. Entretanto as chamas já ameaçavam outras povoações (Fontainhas, Chavelho e Coutada), queimando as primeiras casas na zona ocidental da freguesia de Figueiró dos Vinhos. As fagulhas caíam na vila e o cheiro a queimado era intenso. Temeu-se pela própria vila e que a providencial mudança de vento salvou. Junto dos Bombeiros e dos militares colaboravam “muitas centenas de pessoas, de todas as categorias”.
Porém e sem que ninguém se apercebesse, decorria outro drama bem mais profundo lá para “as bandas do rio”, a sul da freguesia figueiroense.
O ano de 1961 começara para os Bombeiros de Figueiró dos Vinhos com uma intervenção no concelho de Castanheira de Pêra, onde um incêndio, no início do ano, colocou em risco a «Serração Castanheirense». “Os denodados soldados da paz conseguiram, de colaboração com os seus colegas locais, limitar ao máximo os prejuízos do sinistro”. Ainda o Verão estava longe e em 12 de Março declara-se um incêndio entre as serras da Castanheira de Pêra e a Ribeira Velha e que “após porfiados esforços os Bombeiros conseguiram extinguir”. A imprensa começava também a insistir junto dos proprietários agro-florestais, apelando para que limpassem os seus terrenos, a fim de “reduzir ao máximo o perigo de incêndios”.

Foi há 50 anos que o inferno passou pelo Vale do Rio – Parte II

05 Dezembro 2011


Os anos 60 inaugurariam o flagelo sazonal dos incêndios florestais na região, em linha com o êxodo da população serrana e o abandono da actividade humana em torno da floresta, intimamente ligada à actividade agrícola, que deixaria os pinhais e eucaliptais à mercê de matos e plantas arbustivas, “em virtude de na sua quase totalidade haver substituído a adubação orgânica pela adubação química”. As florestas deixaram de ser limpas, porque os matos não eram roçados para serem utilizados como fertilizantes na lavoura, e a lenha deixou de ser utilizada como fonte de energia, substituída pelo gás butano. Tanto as transformações sociais verificadas, como a alteração de hábitos e costumes das populações, vieram alterar profundamente o relacionamento entre as comunidades e a floresta, outrora intimo, equilibrado e interligado.
Um curioso reparo era também publicado no jornal «A Regeneração» em 15 de Agosto de 1961, aludindo à exaustiva tarefa dos Bombeiros, à sua heróica e abnegada actividade, “tantas vezes ameaçados até pela sede”. Chamava-se igualmente “a atenção dos incendiários, normalmente involuntários, mas quase sempre descuidados”.
No final do mês de Agosto de 1961, conjugado com as altas temperaturas que se faziam sentir na região, todos estes factores, e que tinham sido subsidiários dos últimos incêndios, iriam ser tragicamente confirmados no violentíssimo sinistro que consumiria as povoações de Casalinho e de Vale do Rio.
Nesse dia 28 de Agosto, o tal drama bem mais profundo e que se desenvolvia lá para “as bandas do rio”, a sul da freguesia figueiroense, tivera início junto da Capela de Santa Madalena, limites de Cernache do Bonjardim, originando um incêndio que iria ficar nos anais da história do concelho de Figueiró dos Vinhos e dos seus Bombeiros Voluntários.
Às 16 horas desse dia esse sinistro de enormes proporções atingia e transpunha o Rio Zêzere com a maior das facilidades, impulsionado pela força dos ventos “que mais pareciam labaredas incolores, tal era a temperatura que transportavam”, continuando a sua marcha destruidora em todas as direcções. Conjugado com o incêndio que rebentara nas imediações da serra de S. Neutel, ameaçou a vila de Figueiró dos Vinhos e as povoações de Várzea, Bairradas, Salgueiro, Douro, Chavelho, Fontainhas, Coutada, Enchecamas, Cabeças, Laranjeira, Carapinhal (as chamas chegaram ao edifício escolar, contíguo à povoação), Chãos, etc. Chegaram a estar em perigo 14 povoações do concelho figueiroense.
Este incêndio gigantesco chegou a desenvolver-se numa frente de cerca de 15 quilómetros, estendendo-se desde as Atalaias (freguesia da Graça e concelho de Pedrógão Grande), até às imediações da freguesia de Arega (concelho de Figueiró dos Vinhos). O combate ao incêndio “foi inicialmente feito pelos Bombeiros Voluntários desta Vila e por muitas centenas de populares; depois, a solicitação do Município e através da preciosa intervenção do Senhor Governador Civil e da própria Emissora Nacional, acorreram a Figueiró dos Vinhos 14 Corporações desta região”.
Este drama originou também um grave problema social, até aí inédito no concelho figueiroense e que marcou as preocupações da edilidade municipal: a reinstalação de dezenas de famílias que tinham perdido todos os seus bens e haveres. De facto, ao final da tarde do dia 28 começaram a chegar à vila grupos de refugiados vindos do Vale do Rio, Casalinho e Salgueiro, que atravessando pinhais e serras a corta-mato, fugiram ao inferno que lhes devorara as casas e uma vida de trabalho. O salão nobre da Câmara Municipal serviu-lhes de alojamento provisório, que rapidamente se transformou em refeitório e dormitório. Algumas casas particulares da vila e dos subúrbios albergaram muitas crianças e adultos. Mas foi no antigo hospital da Misericórdia (Convento do Carmo) que se acolheram dezenas destas famílias, que aí permaneceram durante muito tempo. Apelou-se à solidariedade da população que mobilizou colchões, cobertores, agasalhos e alimentos.
Esse Agosto de 1961 ficaria registado na memória colectiva dos figueiroenses desta forma trágica, por esse inferno florestal que destruiu povoações inteiras, entre os dias 28 e 29, por um flagelo de lume que se iniciara no concelho vizinho da Sertã e que alastrara rapidamente até se propagar extensivamente ao concelho de Figueiró dos Vinhos, ramificando-se e ateando simultaneamente vários focos de incêndio. “Em face da gravidade da situação, e reconhecendo a impotência da Corporação para sozinha atacar tantos e tão distanciados focos de incêndio, o Senhor Comandante, avistou-se com o Senhor Presidente da Câmara e de pronto deliberaram requisitar todas as Corporações da região disponíveis e unidades do exército, o que logo se fez, com o auxilio do Excelentíssimo Governador Civil.”A povoação do Vale do Rio tinha como acesso viário uma estrada que, à época, era intransitável a veículos automóveis. O trajecto era feito por quelhões e caminhos de carroças, através da serra do Douro, por entre penedos soltos e mato. A alternativa era uma espécie de atalho em desfiladeiro que ligava a capela do Bom Jesus ao Douro, desembocando no Salgueiro, por caminhos igualmente difíceis e tortuosos.
José Lima, ex-comandante dos Bombeiros e à época Bombeiro de 1ª Classe, recorda o trajecto feito com o Buick da corporação, pela serra do Douro “com o depósito cheio de gasolina rente ao chão queimado, que nos fez perder muito tempo. Quando chegámos ao Vale do Rio já a povoação tinha ardido!”Outro antigo Bombeiro, Leonel de Jesus Simões, recorda deste incêndio “as chamas com uma altura doida e a carne a arder dentro das salgadeiras e dos potes de azeite, que exalavam um cheiro a carne assada, misturado com o fumo do incêndio”. Recorda também o corpo de um homem carbonizado, que “encontrámos na serra, perto da Água D’Alta, caído de bruços, com um sacho ao lado e apenas com a fita do chapéu na cabeça, o cinto das calças e as botas. É uma imagem que recordarei até morrer!”Outro camarada destes dois Bombeiros, Fernando Rosalino, recordou as viagens que o Buick fez para transportar alimentos para os que haviam ficado no Vale do Rio.
Em 1961 o comandante dos Bombeiros de Figueiró dos Vinhos era Manuel Pereira da Silva Roda e a corporação tinha acabado de se instalar num pátio, localizado à entrada da Rua Teófilo Braga, cedido pela Câmara Municipal à Associação Humanitária. A corporação era composta por cerca de duas dezenas de Bombeiros e possuía 2 veículos motorizados: um velho Buick, que tinha sido oferecido aos Bombeiros por Ivo Lacerda, em Maio de 1957, adaptado a carro de bombeiros na «Oficina Barreiros» e o pronto-socorro Bedford, cujo chassis chegara à vila em Maio de 1959, montado também na mesma oficina e que entrara ao serviço da corporação em Dezembro desse ano. A direcção da Associação dos Bombeiros era presidida por Luis Henrique Quaresma Ferreira, coadjuvado por Henrique Vaz Lacerda (vice-presidente), António Simões de Sousa (secretário) e José da Conceição Barreiros (tesoureiro).
Contudo e apesar de todos os esforços, “quando os Bombeiros chegaram (ao Vale do Rio) já era tarde porque não havia estrada e só veículos de tracção às quatro rodas, que a Corporação não tinha, conseguiriam lá chegar”. As casas da povoação tinham começado a arder quase simultaneamente. “Era um espectáculo arrepiante e dantesco: aos uivos das labaredas; aos ruídos matraqueados dos desmoronamentos de telhados e paredes; ao crepitar das madeiras incandescentes; ao rechinar das carnes e gritos aflitivos dos animais domésticos, juntavam-se os clamores zenitantes da dor dos habitantes que, imponentes para dominar o monstro, foram testemunhas passivas e dolorosas da destruição dos seus lares e haveres”.
Foi por volta das 18 horas do dia 28 que este incêndio ameaçou a própria vila de Figueiró dos Vinhos, que esteve na eminência de ser também devorada. Os esforços denodados dos Bombeiros aliados aos dos populares foram imensos, até que “uma brusca e milagrosa viragem de vento salvou a vila, quando o fogo se encontrava ao Barreiro, no extremo poente da vila”. Nessa altura começaram a chegar outras corporações e as unidades militares de Leiria e de Monte Real, que entraram em acção sob a orientação do Comandante Roda, que organizou o ataque ao sinistro, que se manteve activo até à madrugada do dia 29 “com carácter permanente”, mantendo-se em actividade por mais dois dias, obrigando a uma vigília constante e permanente, “acorrendo as brigadas a vários sectores onde o incêndio a todo o momento se reatava”, até que na manhã do dia 30 foi considerado completamente debelado.

Foi há 50 anos que o inferno passou pelo Vale do Rio – Parte III

05 Dezembro 2011


O saldo negativo cifrou-se em meio milhão de árvores sacrificadas, “onde arderam dois mil e quinhentos hectares de pinhais”, duas aldeias calcinadas, “onde 185 pessoas ficaram sem abrigo” e dois mortos, “por asfixia e carbonização, José Antunes Paulo, do Vale do Rio e de António David Campos, do Chavelho”. “Das 49 casas que existiam no Vale do Rio, arderam 35. Também arderam dezenas de anexos que serviam de arrecadação, currais, capoeiras, fornos de broa e centenas de animais. A população era de 167 moradores. No lugar do Casalinho havia 17 habitantes distribuídos por 5 casas que arderam na sua totalidade. A aldeia foi simplesmente riscada do mapa”.
Os repórteres (não identificados) do Jornal local «A Regeneração», que nesses dias fizeram no terreno uma cobertura notável dos acontecimentos, narraram: “Vimos ferros de camas torcidos e calcinados, sinais de derramamento de gorduras, milho queimado, ovelhas, cabras, suínos, batatas e utensílios domésticos, pedaços de relógios, potes de azeite partidos e entornados, eiras repletas carbonizadas, tudo deformado, apavorante. Os soldados abriam longas valas, trazendo em padiolas dezenas e dezenas de animais domésticos carbonizados e mutilados a fim de serem enterrados. Era um espectáculo sinistro, terrivelmente marcado. Os poucos regressados do lugar (Vale do Rio) não pareciam pessoas, eram mais farrapos humanos, abatidos por profunda depressão moral e física.”
No dia 01 de Novembro de 1961 a Câmara Municipal (composta pelos seguintes elementos: Henrique Vaz Lacerda, Presidente; Manuel Alves da Piedade, Vice-Presidente; Aníbal Silveira Herdade e José Simões de Abreu, Vereadores), fazia publicar na imprensa local um agradecimento público dirigido às Corporações de Bombeiros que actuaram nos incêndios de 28 e 29 de Agosto: “(…) cumpre-me vir à presença de Vª Exas. para manifestar o mais profundo e comovido agradecimento deste Concelho à Corporação dos Bombeiros , a cujos destinos e Comando V. Exas. tão proficientemente presidem, pela valiosíssima colaboração que nos deram nos dias 28 e 29 de Agosto ultimo, no combate ao incêndio que tão tristemente atingiu e devastou grande área desta freguesia de Figueiró dos Vinhos(…). Queiram, portanto, Vª Exas. aceitar a expressão sentida do nosso inolvidável agradecimento, que pedimos transmitam a todo o Corpo Activo dessa simpática e humanitária Associação”.
Em Fevereiro de 1962, a Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos dá inicio aos trabalhos de reconstrução da aldeia, sendo necessário proceder também, e com urgência, à beneficiação e alargamento do caminho municipal de acesso ao lugar, com projecto que mandou executar para o efeito.
A povoação de Vale do Rio foi reconstruída entre 1962 e 1964, por determinação do Ministro das Obras Públicas (Arantes de Oliveira), que atendeu às (muitas) pressões que o executivo camarário havia desenvolvido junto do poder central, tendo sido inaugurada em 24 de Outubro de 1964, pelo Presidente da Republica, Almirante Américo Tomás.
O Chefe de Estado foi recebido na vila de Figueiró dos Vinhos por volta do meio-dia desse sábado, pelas autoridades locais e regionais e por muitos populares, que aguardaram “o carro presidencial” ao Barreiro (Rua Major Neutel Abreu).
Coube às corporações de Bombeiros presentes fazerem-lhe a guarda de honra, ao som do hino nacional tocado pela Filarmónica Figueiroense. Atravessou a pé as ruas Luis Quaresma Vale do Rio, Manuel Simões Barreiros até ao “Ramal” (onde “por momentos” apreciou o Jardim Municipal), “delirantemente aclamado por vivas, ao mesmo tempo que das janelas eram lançados milhares de papelinhos verdes e vermelhos e montões de pétalas de flores, constituindo um espectáculo surpreendente e inédito na nossa terra”.
Seguiu depois para o Vale do Rio onde chegou cerca das 13 horas, sendo recebido por muito povo “que para ali se tinha deslocado a fim de assistir à cerimónia e também pelo Rancho Folclórico do Olival”.
A entrada da povoação estava emoldurada por um arco artístico revestido de verdura e por uma fita com as cores nacionais, que Américo Tomás cortou, com uma tesoura oferecida por uma velhinha numa salva de prata, “impecável no seu trajo domingueiro e com a alegria estampada no rosto”.
Armou-se uma tribuna no largo da Capela da povoação, repleto de gente, onde discursaram o Presidente da Câmara Municipal (Henrique Lacerda), o Ministro das Obras Públicas (Arantes e Oliveira) e o Presidente da República.
Foi devido a esta tragédia e ao renascer das cinzas de uma aldeia, que o concelho figueiroense recebeu pela primeira vez, na sua história, um Chefe de Estado Português. Henrique Lacerda não perdeu a oportunidade e aproveitou para dissertar sobre as belezas naturais do rincão concelhio, dos seus heróis, da sua apetência para as Artes, dos seus Artistas (sobretudo de Malhoa), da sua rusticidade e das suas gentes simples e humildes mas também do seu potencial para o Turismo Nacional “como zona de eleição a aproveitar e a desenvolver”.
Américo Tomás, visivelmente emocionado, congratulou-se pela humilde “aldeia, que ressurgia mais bonita do que era, das cinzas de um pavoroso incêndio”.
As cerimónias de inauguração terminaram com um almoço servido no ginásio da Escola Secundária Municipal “num ambiente muito elevado”.
Do incêndio de 1961 nunca se apuraram as causas concretas. Desses dias de má memória devia ter ficado uma lição sofredoramente aprendida. Contudo, passados 50 anos desta tragédia, recordo o Verão de 2005 que abrasou cerca de 50% do território agro-florestal figueiroense e que voltou a colocar em risco várias povoações. A rotina dos fogos, o som da sirene dos Bombeiros, continuam a marcar, a ecoar na memória das gentes do concelho, a escrever páginas de dor e lágrimas perante o braseiro sazonal que transforma as nossas serranias luxuriantes em paisagens lunares escuras e cinzentas.
Sobre os homens que enfrentam as labaredas fica o registo que colhi há uns bons anos atrás, na companhia do então comandante Aguinaldo Feitor Silva e de um Bombeiro (Jorge Paulo Nunes Lopes), enquanto perscrutávamos alguns recantos florestais para realizar um pequeno filme dedicado aos bombeiros figueiroenses. Ouvi uma expressão que me ficou para sempre gravada na minha memória. Esse Bombeiro que nos acompanhava, ao olhar para a imensidão da mancha florestal, entrecortada pela serrania beirã, disse em jeito de desabafo: “Olhe Comandante, no Verão enquanto uns gastam o suor nas praias, nós (Bombeiros) gastamos o nosso aqui, no meio destas matas!”

(Fontes: Relatório enviado ao Inspector de Incêndios da Zona Sul (Lisboa), datado de 23 de Abril de 1963;
Jornal «A Regeneração», nºs 1025, 1026 e 1030, de 1961; “O grande incêndio de 1961”, «Jornal de Figueiró dos Vinhos», nº56, Agosto de 1986; Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, Relatório sobre o incêndio e a reconstrução das aldeias de Vale do Rio e Casalinho, CMFV, 1964, pp. 9-10; Acta de reunião da Direcção da AHBVFV, de 02 de Setembro de 1961; Pires, Simões, “Foi há 25 anos no Vale do Rio”, in «Jornal de Figueiró dos Vinhos», nº 54, Agosto de 1986; Dias, José Rodrigues, “Ainda o grande incêndio de 1961”, in Jornal «A Regeneração», nº 1132, Fevereiro de 1966; Acta da reunião da Direcção da ABVFV, de 02 de Setembro de 1961; Acta do Conselho Municipal de 15 de Setembro de 1961, p.64; Jornal «O Norte do Distrito», nº 284, de 25 de Outubro de 1964. Imagens: site da Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos – «Figueiró em Imagens» ; Aguinaldo Feitor Silva e espólio do autor.)

Cheira a broa fresca

12 Novembro 2011

Aos domingos, cheirava a broa fresca assim que entravamos na sala da minha avó Mariana.
A mesa posta para a família, com uma toalha axadrezada verde e branca. Ao centro, um prato grande de porcelana antiga de faixas azuladas, cheio de chouriças de lombo e farinheiras, que entornavam o molho, seduzindo os cadinhos dos olhos e fazendo crescer água na boca. O toucinho e a entremeada fumegavam em compridas travessas elípticas, misturando odores com as especiarias que polvilhavam o naco de carne assada, acamada em batatas coradas, numa assadeira cerâmica avermelhada, acabadinha de sair do velho forno de pedra abobadado e que a minha prima acendia logo pela manhã.
A arquitectura do repasto completava-se com pratos de febras assadas, que as minhas tias aconchegavam na mesa. A terrina com a canja, engordurada com uma galinha que teve má sorte nesse dia, sacrificada em honra da tribo familiar, completava o menu da comezaina.
Os meus tios algazarravam no corredor e preparavam as munições vinícolas, com que se havia de regar o banquete. O vinho, o sangue da terra, saído da lida em torno das videiras, cujas uvas generosas foram pisadas com os pés deles no “patamar” da adega do meu avô, libertava os espíritos, clareava as almas e abrasava a conversa do oráculo familiar.
Comia-se primeiro a broa, que se recobria com queijo fresco ou lascas de presunto, acamando o estômago para a batalha almoçante, que se havia de travar com vagar!
Falava-se da horta da “Valada”, dos pinheiros da “Sorriba”, da vinha da “Poisia”. Cortava-se na casaca da vizinhança, enquanto se trinchava a carne. Um dos meus tios arrotava e a risota estoirava por entre ditos maliciosos. Os olhos brilhavam e a razão tremelicava por entre trivialidades e futriquices costumeiras, misturadas com o copito de bagaço para ajudar a digestão.
A tarde acabava imperiosa, com a rapaziada mais nova a jogar à bola no pequeno adro junto à capela do Carapinhal. Os homens reúniam-se em comandita e faziam o périplo habitual pelas adegas uns dos outros.
Mesmo com a sala vazia, mesmo com a casa da minha avó já desaparecida, cheirará sempre a broa fresca, neste recanto mágico das minhas memórias!

ENCONTRO DE RELIGIÕES, ENCONTRO DE CULTURAS

14 Setembro 2011

A Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos irá realizar um ciclo de palestras dedicadas a 5 (cinco) grandes religiões do mundo (Cristianismo; Islamismo; Budismo; Hinduísmo e Judaísmo), que irão ter lugar entre o dia 29 de Setembro e 25 de Outubro:
– 29 de Setembro: Cristianismo;
– 03 de Outubro: Islamismo;
– 11 de Outubro: Budismo;
– 21 de Outubro: Hinduismo;
– 25 de Outubro: Judaísmo.
Esta iniciativa pretende motivar a comunidade em geral para uma grande reflexão em torno das grandes questões religiosas, espirituais e éticas. Pretende-se também promover o debate em torno da multiculturalidade, sensibilizando as pessoas para o diálogo interreligioso como forma de conhecer outras culturas e combater a intolerância religiosa.
Estarão presentes: Peter Stilwell, Director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Cristianismo); David Munir, Sheikh da Comunidade Islâmica Portuguesa (Islamismo); Paulo Borges, Presidente da União Budista Portuguesa (Budismo); Luis Filipe Thomaz, Director do Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (Hinduísmo); Eliezer Shai Di Martino, Rabino da Comunidade Israelita de Lisboa (Judaismo).

Consultar mais em: http://www.bmfigueirodosvinhos.com.pt/

Artigos Anteriores »