TóZé Silva Crónicas dum Tempo

A chinese lion statue

Olá a todos!

Que memórias colectivas têm os Figueiroenses mais presentes? Que identidade é que, conjuntamente, soubemos forjar ao longo dos tempos, dentro de um espaço comum e que temos como nosso? Quais são os nossos valores genuínos que nos fazem sentir como Figueiroenses e igualmente como Beirões? E a pergunta mais importante: que património (cultural, artístico, histórico, arqueológico, etnográfico, etc) possuímos e onde está ele, para testemunhar aquilo que somos? Este é um espaço onde se pretende reflectir, com serenidade, sobre estas e outras questões.

Foi há 50 anos que o inferno passou pelo Vale do Rio – Parte I

TóZéSilva 05 Dezembro 2011


Naquela segunda-feira, dia 28 de Agosto de 1961, perto das 11 horas da manhã, José Simões andava a “renovar” pinheiros no Casal de Alge, quando um homem (João Almeida) apareceu junto de si “espavorido”, de sacho às costa, a avisá-lo de que o inferno subia a serra rumo ao Vale do Rio. Alarmado, José Simões pensou na mulher, nos filhos e na casa e calcorreou carreiros e atalhos para salvar o que humildemente lhe pertencia. Alcançou a aldeia perto do meio-dia, encontrando um ambiente tresloucado e de pânico generalizado. O fogo já andava atrás da serra a poente da povoação. As hortas envolventes já ardiam sob a chuva de fagulhas que desciam do céu vermelho escuro. Sentiu nesse dia que o destino o castigava, quando pouco tempo depois, olhou em redor das serranias, transformadas em cumes de fogo.
Entrou na casa e agarrou na esposa (Maria Jacinta da Silva), nos dois filhos (um com 2 meses e outro com 1 ano) e numa mala cheia de roupa, e levou-os para dentro de uma mina, localizada na aldeia. Deixou-lhes um presunto e uma broa para não passarem fome, enquanto o inferno rugisse uns metros acima deles. Esse refúgio foi-o de muita gente, um túnel escuro com mais de 50m de comprimento e com água que “dava pelos joelhos” e que José Simões e os vizinhos esgotaram, à força de cântaros, carregando-os ladeira acima, aspergindo portas e janelas das suas casas, que já escorriam resina, derretida sobre o calor abrasador e sufocante que abraçava a humilde povoação. O gado morreu carbonizado dentro dos currais, ainda soltou o porco mas acabou por morrer na fuga, encosta abaixo em direcção ao rio.
José Simões tinha 32 anos quando viveu a experiência mais terrível da sua vida. Passados 50 anos, quando lhe perguntei sobre estas recordações, os olhos faiscaram, e lançando a cabeça levemente para trás, disse-me: “Se me lembro desse incêndio, ai se me lembro!”. Por entre as suas memórias adormecidas e que eu desafiara a acordar, ia soltando laivos conciliadores com o tempo, pensando mais consigo próprio do que para com o entrevistador: “Nesse dia vi pessoas que não se falavam havia anos, a darem água a beber uma às outras, naquelas horas de aflição!”
Há 50 anos aquele dia de Agosto amanhecera quente, de tal forma, que ao meio-dia já o calor sufocava a vila de Figueiró dos Vinhos, eclodindo um incêndio em Aldeia de Ana de Aviz, que os Bombeiros prontamente extinguiram.
A hora do almoço avança e no horizonte, a sul da vila, torna-se visível um grande incêndio que lavra lá para os lados de Cernache do Bonjardim, envolvendo os cabeços que rodeiam Santa Maria Madalena. Contudo, era longe e havia também o Rio Zêzere que servia de corta-fogo natural, factos que tranquilizavam as gentes figueiroenses.
Por volta das 14 horas a sirene alerta para um novo incêndio que desta vez rebenta na serra de S. Neutel, nos arredores da povoação de Cabeças. O sinistro toma proporções alarmantes e rapidamente faz o céu ficar escuro, fazendo desaparecer o sol. A tarde avança e começam a chegar à vila mensageiros vindos do Carapinhal e dos Chãos, que anunciavam a eminência da destruição das primeiras casas, prestes a serem engolidas pelo fogo. O pânico instalou-se e generalizou-se quando os sinos da Igreja Matriz tocam a rebate. O trabalho na vila parou, fecharam-se os estabelecimentos e abandonou-se o trabalho nas fábricas. Os turistas hospedados no Hotel Terrabela debandam para longe da vila. Todos procuravam acorrer à zona atingida pelo incêndio, que assumia proporções dantescas. O executivo municipal multiplicava esforços para conseguir o apoio de meios militares e de outras corporações de Bombeiros. A praça do município foi transformada em centro de operações, com a presença de várias autoridades civis e militares, entre elas o próprio Governador Civil. Entretanto as chamas já ameaçavam outras povoações (Fontainhas, Chavelho e Coutada), queimando as primeiras casas na zona ocidental da freguesia de Figueiró dos Vinhos. As fagulhas caíam na vila e o cheiro a queimado era intenso. Temeu-se pela própria vila e que a providencial mudança de vento salvou. Junto dos Bombeiros e dos militares colaboravam “muitas centenas de pessoas, de todas as categorias”.
Porém e sem que ninguém se apercebesse, decorria outro drama bem mais profundo lá para “as bandas do rio”, a sul da freguesia figueiroense.
O ano de 1961 começara para os Bombeiros de Figueiró dos Vinhos com uma intervenção no concelho de Castanheira de Pêra, onde um incêndio, no início do ano, colocou em risco a «Serração Castanheirense». “Os denodados soldados da paz conseguiram, de colaboração com os seus colegas locais, limitar ao máximo os prejuízos do sinistro”. Ainda o Verão estava longe e em 12 de Março declara-se um incêndio entre as serras da Castanheira de Pêra e a Ribeira Velha e que “após porfiados esforços os Bombeiros conseguiram extinguir”. A imprensa começava também a insistir junto dos proprietários agro-florestais, apelando para que limpassem os seus terrenos, a fim de “reduzir ao máximo o perigo de incêndios”.

Foi há 50 anos que o inferno passou pelo Vale do Rio – Parte II

TóZéSilva 05 Dezembro 2011


Os anos 60 inaugurariam o flagelo sazonal dos incêndios florestais na região, em linha com o êxodo da população serrana e o abandono da actividade humana em torno da floresta, intimamente ligada à actividade agrícola, que deixaria os pinhais e eucaliptais à mercê de matos e plantas arbustivas, “em virtude de na sua quase totalidade haver substituído a adubação orgânica pela adubação química”. As florestas deixaram de ser limpas, porque os matos não eram roçados para serem utilizados como fertilizantes na lavoura, e a lenha deixou de ser utilizada como fonte de energia, substituída pelo gás butano. Tanto as transformações sociais verificadas, como a alteração de hábitos e costumes das populações, vieram alterar profundamente o relacionamento entre as comunidades e a floresta, outrora intimo, equilibrado e interligado.
Um curioso reparo era também publicado no jornal «A Regeneração» em 15 de Agosto de 1961, aludindo à exaustiva tarefa dos Bombeiros, à sua heróica e abnegada actividade, “tantas vezes ameaçados até pela sede”. Chamava-se igualmente “a atenção dos incendiários, normalmente involuntários, mas quase sempre descuidados”.
No final do mês de Agosto de 1961, conjugado com as altas temperaturas que se faziam sentir na região, todos estes factores, e que tinham sido subsidiários dos últimos incêndios, iriam ser tragicamente confirmados no violentíssimo sinistro que consumiria as povoações de Casalinho e de Vale do Rio.
Nesse dia 28 de Agosto, o tal drama bem mais profundo e que se desenvolvia lá para “as bandas do rio”, a sul da freguesia figueiroense, tivera início junto da Capela de Santa Madalena, limites de Cernache do Bonjardim, originando um incêndio que iria ficar nos anais da história do concelho de Figueiró dos Vinhos e dos seus Bombeiros Voluntários.
Às 16 horas desse dia esse sinistro de enormes proporções atingia e transpunha o Rio Zêzere com a maior das facilidades, impulsionado pela força dos ventos “que mais pareciam labaredas incolores, tal era a temperatura que transportavam”, continuando a sua marcha destruidora em todas as direcções. Conjugado com o incêndio que rebentara nas imediações da serra de S. Neutel, ameaçou a vila de Figueiró dos Vinhos e as povoações de Várzea, Bairradas, Salgueiro, Douro, Chavelho, Fontainhas, Coutada, Enchecamas, Cabeças, Laranjeira, Carapinhal (as chamas chegaram ao edifício escolar, contíguo à povoação), Chãos, etc. Chegaram a estar em perigo 14 povoações do concelho figueiroense.
Este incêndio gigantesco chegou a desenvolver-se numa frente de cerca de 15 quilómetros, estendendo-se desde as Atalaias (freguesia da Graça e concelho de Pedrógão Grande), até às imediações da freguesia de Arega (concelho de Figueiró dos Vinhos). O combate ao incêndio “foi inicialmente feito pelos Bombeiros Voluntários desta Vila e por muitas centenas de populares; depois, a solicitação do Município e através da preciosa intervenção do Senhor Governador Civil e da própria Emissora Nacional, acorreram a Figueiró dos Vinhos 14 Corporações desta região”.
Este drama originou também um grave problema social, até aí inédito no concelho figueiroense e que marcou as preocupações da edilidade municipal: a reinstalação de dezenas de famílias que tinham perdido todos os seus bens e haveres. De facto, ao final da tarde do dia 28 começaram a chegar à vila grupos de refugiados vindos do Vale do Rio, Casalinho e Salgueiro, que atravessando pinhais e serras a corta-mato, fugiram ao inferno que lhes devorara as casas e uma vida de trabalho. O salão nobre da Câmara Municipal serviu-lhes de alojamento provisório, que rapidamente se transformou em refeitório e dormitório. Algumas casas particulares da vila e dos subúrbios albergaram muitas crianças e adultos. Mas foi no antigo hospital da Misericórdia (Convento do Carmo) que se acolheram dezenas destas famílias, que aí permaneceram durante muito tempo. Apelou-se à solidariedade da população que mobilizou colchões, cobertores, agasalhos e alimentos.
Esse Agosto de 1961 ficaria registado na memória colectiva dos figueiroenses desta forma trágica, por esse inferno florestal que destruiu povoações inteiras, entre os dias 28 e 29, por um flagelo de lume que se iniciara no concelho vizinho da Sertã e que alastrara rapidamente até se propagar extensivamente ao concelho de Figueiró dos Vinhos, ramificando-se e ateando simultaneamente vários focos de incêndio. “Em face da gravidade da situação, e reconhecendo a impotência da Corporação para sozinha atacar tantos e tão distanciados focos de incêndio, o Senhor Comandante, avistou-se com o Senhor Presidente da Câmara e de pronto deliberaram requisitar todas as Corporações da região disponíveis e unidades do exército, o que logo se fez, com o auxilio do Excelentíssimo Governador Civil.”A povoação do Vale do Rio tinha como acesso viário uma estrada que, à época, era intransitável a veículos automóveis. O trajecto era feito por quelhões e caminhos de carroças, através da serra do Douro, por entre penedos soltos e mato. A alternativa era uma espécie de atalho em desfiladeiro que ligava a capela do Bom Jesus ao Douro, desembocando no Salgueiro, por caminhos igualmente difíceis e tortuosos.
José Lima, ex-comandante dos Bombeiros e à época Bombeiro de 1ª Classe, recorda o trajecto feito com o Buick da corporação, pela serra do Douro “com o depósito cheio de gasolina rente ao chão queimado, que nos fez perder muito tempo. Quando chegámos ao Vale do Rio já a povoação tinha ardido!”Outro antigo Bombeiro, Leonel de Jesus Simões, recorda deste incêndio “as chamas com uma altura doida e a carne a arder dentro das salgadeiras e dos potes de azeite, que exalavam um cheiro a carne assada, misturado com o fumo do incêndio”. Recorda também o corpo de um homem carbonizado, que “encontrámos na serra, perto da Água D’Alta, caído de bruços, com um sacho ao lado e apenas com a fita do chapéu na cabeça, o cinto das calças e as botas. É uma imagem que recordarei até morrer!”Outro camarada destes dois Bombeiros, Fernando Rosalino, recordou as viagens que o Buick fez para transportar alimentos para os que haviam ficado no Vale do Rio.
Em 1961 o comandante dos Bombeiros de Figueiró dos Vinhos era Manuel Pereira da Silva Roda e a corporação tinha acabado de se instalar num pátio, localizado à entrada da Rua Teófilo Braga, cedido pela Câmara Municipal à Associação Humanitária. A corporação era composta por cerca de duas dezenas de Bombeiros e possuía 2 veículos motorizados: um velho Buick, que tinha sido oferecido aos Bombeiros por Ivo Lacerda, em Maio de 1957, adaptado a carro de bombeiros na «Oficina Barreiros» e o pronto-socorro Bedford, cujo chassis chegara à vila em Maio de 1959, montado também na mesma oficina e que entrara ao serviço da corporação em Dezembro desse ano. A direcção da Associação dos Bombeiros era presidida por Luis Henrique Quaresma Ferreira, coadjuvado por Henrique Vaz Lacerda (vice-presidente), António Simões de Sousa (secretário) e José da Conceição Barreiros (tesoureiro).
Contudo e apesar de todos os esforços, “quando os Bombeiros chegaram (ao Vale do Rio) já era tarde porque não havia estrada e só veículos de tracção às quatro rodas, que a Corporação não tinha, conseguiriam lá chegar”. As casas da povoação tinham começado a arder quase simultaneamente. “Era um espectáculo arrepiante e dantesco: aos uivos das labaredas; aos ruídos matraqueados dos desmoronamentos de telhados e paredes; ao crepitar das madeiras incandescentes; ao rechinar das carnes e gritos aflitivos dos animais domésticos, juntavam-se os clamores zenitantes da dor dos habitantes que, imponentes para dominar o monstro, foram testemunhas passivas e dolorosas da destruição dos seus lares e haveres”.
Foi por volta das 18 horas do dia 28 que este incêndio ameaçou a própria vila de Figueiró dos Vinhos, que esteve na eminência de ser também devorada. Os esforços denodados dos Bombeiros aliados aos dos populares foram imensos, até que “uma brusca e milagrosa viragem de vento salvou a vila, quando o fogo se encontrava ao Barreiro, no extremo poente da vila”. Nessa altura começaram a chegar outras corporações e as unidades militares de Leiria e de Monte Real, que entraram em acção sob a orientação do Comandante Roda, que organizou o ataque ao sinistro, que se manteve activo até à madrugada do dia 29 “com carácter permanente”, mantendo-se em actividade por mais dois dias, obrigando a uma vigília constante e permanente, “acorrendo as brigadas a vários sectores onde o incêndio a todo o momento se reatava”, até que na manhã do dia 30 foi considerado completamente debelado.

Foi há 50 anos que o inferno passou pelo Vale do Rio – Parte III

TóZéSilva 05 Dezembro 2011


O saldo negativo cifrou-se em meio milhão de árvores sacrificadas, “onde arderam dois mil e quinhentos hectares de pinhais”, duas aldeias calcinadas, “onde 185 pessoas ficaram sem abrigo” e dois mortos, “por asfixia e carbonização, José Antunes Paulo, do Vale do Rio e de António David Campos, do Chavelho”. “Das 49 casas que existiam no Vale do Rio, arderam 35. Também arderam dezenas de anexos que serviam de arrecadação, currais, capoeiras, fornos de broa e centenas de animais. A população era de 167 moradores. No lugar do Casalinho havia 17 habitantes distribuídos por 5 casas que arderam na sua totalidade. A aldeia foi simplesmente riscada do mapa”.
Os repórteres (não identificados) do Jornal local «A Regeneração», que nesses dias fizeram no terreno uma cobertura notável dos acontecimentos, narraram: “Vimos ferros de camas torcidos e calcinados, sinais de derramamento de gorduras, milho queimado, ovelhas, cabras, suínos, batatas e utensílios domésticos, pedaços de relógios, potes de azeite partidos e entornados, eiras repletas carbonizadas, tudo deformado, apavorante. Os soldados abriam longas valas, trazendo em padiolas dezenas e dezenas de animais domésticos carbonizados e mutilados a fim de serem enterrados. Era um espectáculo sinistro, terrivelmente marcado. Os poucos regressados do lugar (Vale do Rio) não pareciam pessoas, eram mais farrapos humanos, abatidos por profunda depressão moral e física.”
No dia 01 de Novembro de 1961 a Câmara Municipal (composta pelos seguintes elementos: Henrique Vaz Lacerda, Presidente; Manuel Alves da Piedade, Vice-Presidente; Aníbal Silveira Herdade e José Simões de Abreu, Vereadores), fazia publicar na imprensa local um agradecimento público dirigido às Corporações de Bombeiros que actuaram nos incêndios de 28 e 29 de Agosto: “(…) cumpre-me vir à presença de Vª Exas. para manifestar o mais profundo e comovido agradecimento deste Concelho à Corporação dos Bombeiros , a cujos destinos e Comando V. Exas. tão proficientemente presidem, pela valiosíssima colaboração que nos deram nos dias 28 e 29 de Agosto ultimo, no combate ao incêndio que tão tristemente atingiu e devastou grande área desta freguesia de Figueiró dos Vinhos(…). Queiram, portanto, Vª Exas. aceitar a expressão sentida do nosso inolvidável agradecimento, que pedimos transmitam a todo o Corpo Activo dessa simpática e humanitária Associação”.
Em Fevereiro de 1962, a Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos dá inicio aos trabalhos de reconstrução da aldeia, sendo necessário proceder também, e com urgência, à beneficiação e alargamento do caminho municipal de acesso ao lugar, com projecto que mandou executar para o efeito.
A povoação de Vale do Rio foi reconstruída entre 1962 e 1964, por determinação do Ministro das Obras Públicas (Arantes de Oliveira), que atendeu às (muitas) pressões que o executivo camarário havia desenvolvido junto do poder central, tendo sido inaugurada em 24 de Outubro de 1964, pelo Presidente da Republica, Almirante Américo Tomás.
O Chefe de Estado foi recebido na vila de Figueiró dos Vinhos por volta do meio-dia desse sábado, pelas autoridades locais e regionais e por muitos populares, que aguardaram “o carro presidencial” ao Barreiro (Rua Major Neutel Abreu).
Coube às corporações de Bombeiros presentes fazerem-lhe a guarda de honra, ao som do hino nacional tocado pela Filarmónica Figueiroense. Atravessou a pé as ruas Luis Quaresma Vale do Rio, Manuel Simões Barreiros até ao “Ramal” (onde “por momentos” apreciou o Jardim Municipal), “delirantemente aclamado por vivas, ao mesmo tempo que das janelas eram lançados milhares de papelinhos verdes e vermelhos e montões de pétalas de flores, constituindo um espectáculo surpreendente e inédito na nossa terra”.
Seguiu depois para o Vale do Rio onde chegou cerca das 13 horas, sendo recebido por muito povo “que para ali se tinha deslocado a fim de assistir à cerimónia e também pelo Rancho Folclórico do Olival”.
A entrada da povoação estava emoldurada por um arco artístico revestido de verdura e por uma fita com as cores nacionais, que Américo Tomás cortou, com uma tesoura oferecida por uma velhinha numa salva de prata, “impecável no seu trajo domingueiro e com a alegria estampada no rosto”.
Armou-se uma tribuna no largo da Capela da povoação, repleto de gente, onde discursaram o Presidente da Câmara Municipal (Henrique Lacerda), o Ministro das Obras Públicas (Arantes e Oliveira) e o Presidente da República.
Foi devido a esta tragédia e ao renascer das cinzas de uma aldeia, que o concelho figueiroense recebeu pela primeira vez, na sua história, um Chefe de Estado Português. Henrique Lacerda não perdeu a oportunidade e aproveitou para dissertar sobre as belezas naturais do rincão concelhio, dos seus heróis, da sua apetência para as Artes, dos seus Artistas (sobretudo de Malhoa), da sua rusticidade e das suas gentes simples e humildes mas também do seu potencial para o Turismo Nacional “como zona de eleição a aproveitar e a desenvolver”.
Américo Tomás, visivelmente emocionado, congratulou-se pela humilde “aldeia, que ressurgia mais bonita do que era, das cinzas de um pavoroso incêndio”.
As cerimónias de inauguração terminaram com um almoço servido no ginásio da Escola Secundária Municipal “num ambiente muito elevado”.
Do incêndio de 1961 nunca se apuraram as causas concretas. Desses dias de má memória devia ter ficado uma lição sofredoramente aprendida. Contudo, passados 50 anos desta tragédia, recordo o Verão de 2005 que abrasou cerca de 50% do território agro-florestal figueiroense e que voltou a colocar em risco várias povoações. A rotina dos fogos, o som da sirene dos Bombeiros, continuam a marcar, a ecoar na memória das gentes do concelho, a escrever páginas de dor e lágrimas perante o braseiro sazonal que transforma as nossas serranias luxuriantes em paisagens lunares escuras e cinzentas.
Sobre os homens que enfrentam as labaredas fica o registo que colhi há uns bons anos atrás, na companhia do então comandante Aguinaldo Feitor Silva e de um Bombeiro (Jorge Paulo Nunes Lopes), enquanto perscrutávamos alguns recantos florestais para realizar um pequeno filme dedicado aos bombeiros figueiroenses. Ouvi uma expressão que me ficou para sempre gravada na minha memória. Esse Bombeiro que nos acompanhava, ao olhar para a imensidão da mancha florestal, entrecortada pela serrania beirã, disse em jeito de desabafo: “Olhe Comandante, no Verão enquanto uns gastam o suor nas praias, nós (Bombeiros) gastamos o nosso aqui, no meio destas matas!”

(Fontes: Relatório enviado ao Inspector de Incêndios da Zona Sul (Lisboa), datado de 23 de Abril de 1963;
Jornal «A Regeneração», nºs 1025, 1026 e 1030, de 1961; “O grande incêndio de 1961”, «Jornal de Figueiró dos Vinhos», nº56, Agosto de 1986; Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, Relatório sobre o incêndio e a reconstrução das aldeias de Vale do Rio e Casalinho, CMFV, 1964, pp. 9-10; Acta de reunião da Direcção da AHBVFV, de 02 de Setembro de 1961; Pires, Simões, “Foi há 25 anos no Vale do Rio”, in «Jornal de Figueiró dos Vinhos», nº 54, Agosto de 1986; Dias, José Rodrigues, “Ainda o grande incêndio de 1961”, in Jornal «A Regeneração», nº 1132, Fevereiro de 1966; Acta da reunião da Direcção da ABVFV, de 02 de Setembro de 1961; Acta do Conselho Municipal de 15 de Setembro de 1961, p.64; Jornal «O Norte do Distrito», nº 284, de 25 de Outubro de 1964. Imagens: site da Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos – «Figueiró em Imagens» ; Aguinaldo Feitor Silva e espólio do autor.)

Cheira a broa fresca

TóZéSilva 12 Novembro 2011

Aos domingos, cheirava a broa fresca assim que entravamos na sala da minha avó Mariana.
A mesa posta para a família, com uma toalha axadrezada verde e branca. Ao centro, um prato grande de porcelana antiga de faixas azuladas, cheio de chouriças de lombo e farinheiras, que entornavam o molho, seduzindo os cadinhos dos olhos e fazendo crescer água na boca. O toucinho e a entremeada fumegavam em compridas travessas elípticas, misturando odores com as especiarias que polvilhavam o naco de carne assada, acamada em batatas coradas, numa assadeira cerâmica avermelhada, acabadinha de sair do velho forno de pedra abobadado e que a minha prima acendia logo pela manhã.
A arquitectura do repasto completava-se com pratos de febras assadas, que as minhas tias aconchegavam na mesa. A terrina com a canja, engordurada com uma galinha que teve má sorte nesse dia, sacrificada em honra da tribo familiar, completava o menu da comezaina.
Os meus tios algazarravam no corredor e preparavam as munições vinícolas, com que se havia de regar o banquete. O vinho, o sangue da terra, saído da lida em torno das videiras, cujas uvas generosas foram pisadas com os pés deles no “patamar” da adega do meu avô, libertava os espíritos, clareava as almas e abrasava a conversa do oráculo familiar.
Comia-se primeiro a broa, que se recobria com queijo fresco ou lascas de presunto, acamando o estômago para a batalha almoçante, que se havia de travar com vagar!
Falava-se da horta da “Valada”, dos pinheiros da “Sorriba”, da vinha da “Poisia”. Cortava-se na casaca da vizinhança, enquanto se trinchava a carne. Um dos meus tios arrotava e a risota estoirava por entre ditos maliciosos. Os olhos brilhavam e a razão tremelicava por entre trivialidades e futriquices costumeiras, misturadas com o copito de bagaço para ajudar a digestão.
A tarde acabava imperiosa, com a rapaziada mais nova a jogar à bola no pequeno adro junto à capela do Carapinhal. Os homens reúniam-se em comandita e faziam o périplo habitual pelas adegas uns dos outros.
Mesmo com a sala vazia, mesmo com a casa da minha avó já desaparecida, cheirará sempre a broa fresca, neste recanto mágico das minhas memórias!

ENCONTRO DE RELIGIÕES, ENCONTRO DE CULTURAS

TóZéSilva 14 Setembro 2011

A Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos irá realizar um ciclo de palestras dedicadas a 5 (cinco) grandes religiões do mundo (Cristianismo; Islamismo; Budismo; Hinduísmo e Judaísmo), que irão ter lugar entre o dia 29 de Setembro e 25 de Outubro:
- 29 de Setembro: Cristianismo;
- 03 de Outubro: Islamismo;
- 11 de Outubro: Budismo;
- 21 de Outubro: Hinduismo;
- 25 de Outubro: Judaísmo.
Esta iniciativa pretende motivar a comunidade em geral para uma grande reflexão em torno das grandes questões religiosas, espirituais e éticas. Pretende-se também promover o debate em torno da multiculturalidade, sensibilizando as pessoas para o diálogo interreligioso como forma de conhecer outras culturas e combater a intolerância religiosa.
Estarão presentes: Peter Stilwell, Director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Cristianismo); David Munir, Sheikh da Comunidade Islâmica Portuguesa (Islamismo); Paulo Borges, Presidente da União Budista Portuguesa (Budismo); Luis Filipe Thomaz, Director do Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (Hinduísmo); Eliezer Shai Di Martino, Rabino da Comunidade Israelita de Lisboa (Judaismo).

Consultar mais em: http://www.bmfigueirodosvinhos.com.pt/

Exposição “Figueiró – 100 anos de imagens”

TóZéSilva 21 Junho 2011

No dia 18 de Junho de 2011 foi inaugurada uma exposição, na Casa da Cultura/Clube Figueiroense, denominada «Figueiró – 100 anos de imagens».
Em cerca de 30 painéis é possível discernir a evolução urbanística de algumas das principais artérias da vila de Figueiró dos Vinhos, bem como a sua dinâmica histórica e memorial, enquanto espaços públicos.
A toponímia de uma localidade reflecte a identidade da sua comunidade, do seu património, da sua cultura, das suas tradições, da sua memória colectiva.
Nela, estão também presentes os valores humanos que dão rosto à sua história, como referências de uma época, de vontades e de acções de cidadania e que os poderes públicos quiseram preservar, como mediadores temporais, de um passado que serve de exemplo mas também de lição a ter em conta no futuro.
Lá estão, a Câmara Municipal e a Praça do Município; a Rua Dr. Manuel Simões Barreiros (que teve outros nomes: Rua Visconde de S. Sebastião e Avenida Nova); A Rua Luis Quaresma Val do Rio; A Rua Major Neutel Abreu; a Rua Teófilo Braga; a Praça Simões de Almeida Sobrinho (antiga Praça do Brasil); a Avenida Padre Diogo Vasconcelos (vulgarmente conhecida por “Ramal”); a Avenida das Escolas (antiga Avenida Salazar); a Rua Dr. José Martinho Simões; a Rua dos Bombeiros Voluntários (antiga Rua do Convento do Carmo); a Torre da Cadeia (ainda com a cadeia); o “Casulo” do Mestre Malhoa; a Casa do Arcipreste (Padre António Inglês); os dois Jardins Municipais; vistas aéreas dos anos 30 (1936) e algumas panorâmicas da vila figueiroense.
É por tudo isto que merece uma visita, um relance atento, uma reflexão descontraída, nesta breve “viagem” ao nosso passado comum, à nossa memória colectiva, enformada na paisagem urbanística, que o tempo e os homens vão alterando e vão afeiçoando no seu caminhar histórico e existencial.

Visita a Conimbriga de 2 turmas da Universidade Sénior de Figueiró dos Vinhos

TóZéSilva 05 Junho 2011


16 de Maio de 2011, Conimbriga.

Há 1700 anos uma cidade fervilhava de intensa actividade. Emanavam dela os sons de um mundo desaparecido.
O sol reflectia-se na oficina do vidreiro; saíam rumores dos tornos do oleiro; saltavam chispas de madeira da banca do carpinteiro; sentia-se o brunido do cinzel do canteiro; reconhecia-se o matraquear do tear do tecelão e o estampido do martelar na oficina do serralheiro. Cheirava a pão fresco por entre o burburinho da plebe. Cheirava a unguentos e a perfumes emanados da loja do boticário.
Na taberna jogava-se aos dados e falava-se alto entre dois copos de “mulsum”; demandava-se o fórum à procura da basílica, do mercado e do tribunal. Nos templos os véus cobriam as cabeças, quando se suplicava aos deuses. Na praça pública, perante a estátua do senhor de Roma, cultuava-se um império, que durou 1000 anos!
A cidade resplandeceu, orgulhosa do seu comércio e da sua indústria. Nas termas, entre a sauna e a piscina, discutia-se politica, filosofia e religião. Ia-se ao anfiteatro aplaudir os gladiadores, ou emocionar-se perante os actores da tragédia e da comédia.
Nas ruas circulavam gentes apressadas: o médico com os seus bisturis; o magistrado com a sua toga de faixa púrpura; a matrona elegante com a “stolla” vestida; o escravo apressado que seguia o seu senhor; o operário com a sua túnica; o soldado de capacete reluzente; o centurião com a capa vermelha; as crianças que jogavam ao pião; a noiva, com grinaldas de flores na cabeça e de véu alaranjado.
A noite enchia a cidade com a luz bruxuleante das lucernas, das lanternas e dos candelabros. O lume, símbolo do ser vivo, que não devia faltar em nenhuma casa e que devia apagar-se por si, já madrugada alta.
Como foi que se construiu um império? Como funcionava uma cidade romana? Como nasce, cresce e morre uma cidade? Como era o quotidiano destas gentes que existiram há cerca de 2000 anos? Como viviam, como nasciam, como cresciam, como sonhavam, como morriam?
Foi tudo isto que tentei explicar no dia 16 de Maio em Conímbriga, perante duas turmas da Universidade Sénior de Figueiró dos Vinhos, iniciativa que partiu das disciplinas de Relações Interculturais (Helena Teixeira) e História Local e Regional (TóZé Silva).
A visita de estudo abrangeu a totalidade das ruínas da cidade, tendo finalizado no museu monográfico de Conímbriga, numa jornada que se quis de conhecimento e de reflexão mas também recheada de entusiasmo, muito convívio e boa disposição, emoldurada por um pic-nic, feito no parque de merendas do museu, que enriqueceu e reforçou o espírito deste grupo, para iniciativas futuras.
(Já antes, em Março, o mesmo grupo, composto pelas mesmas duas turmas, havia realizado outra visita de estudo, num périplo pelas principais referências patrimoniais da vila figueiroense, com o habitual pic-nic pelo meio, realizado no parque de merendas da Abrunheira e que finalizou num potencial local arqueológico, nas imediações da aldeia do xisto de Casal de S. Simão).
Da lição de Conímbriga, cidade romana que teve o seu apogeu por volta do ano 100 d.C., importa reter, que mais importante que as praças, as casas, os jardins, os templos, as lojas, os fóruns, os bairros e as avenidas das cidades, é o espírito de cidadania que as engrandece! São as pessoas que nelas habitam e com elas interagem, que lhes emprestam prestígio, valor e identidade.
São as convicções, forjadas em ideais comuns, que forjam os impérios e as civilizações, que criam e sustentam as cidades. Quando a sua essência se esgota e esvazia de vitalidade, também se esvaziam as cidades e se arruínam os seus esplendores.
(Foto: António Leitão)

Em nome da memória colectiva figueiroense

TóZéSilva 18 Janeiro 2011

A Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos, para além da digitalização que levou a efeito, relacionada com toda a imprensa local publicada em Figueiró dos Vinhos (desde os finais do século XIX até ao momento presente), tem colocado igualmente on-line outros documentos importantes, que permitirão conhecer melhor a história do concelho figueiroense, contribuindo desta forma para a preservação da sua memória colectiva.
Assim, estão já disponíveis no seu site os seguintes documentos:
1- As «Actas da Assembleia-Geral» do Clube Figueiroense, entre 1887 e 1895 e de 1916 a 1945. Lembramos que na fundação deste Clube estiveram envolvidas personalidades tão distintas como o pintor José Malhoa e o escultor Simões de Almeida (tio);
2- A revista de «Turismo: revista de arte, paisagem e costumes portugueses», referente a Abril-Junho de 1958 e que dedica uma dúzia de páginas ao concelho de Figueiró dos Vinhos, numa edição a nível nacional, dedicada a praias e a termas. O concelho era visto também como estância termal, a par de estância turística;
3- O livro «Antiguidades, famílias e varões ilustres de Sernache do Bonjardim e seus contornos», de 1926. Digitalizou-se deste livro a parte respeitante a Figueiró dos Vinhos, que cobre as páginas 247 a 271, a que se adiciona um apêndice de 10 páginas com dados adicionais relativos à região e que o livro cobre;
4- Revista editada pela Câmara Municipal intitulada «Figueiró dos Vinhos e o seu concelho», de Março de 1968, com dados monográficos muito interessantes relativos ao concelho figueiroense;
5- Outra revista com carácter monográfico, editada também pelo município de Figueiró dos Vinhos em 1993 e intitulada «Figueiró dos Vinhos Hoje».
Todas estas publicações vêm enriquecer o «Fundo Local» digital da Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos, preservando e contribuindo, desta forma exemplar, para a memória e identidade colectiva do concelho. Com este trabalho a Biblioteca Municipal pretende, simultaneamente, fornecer material documental/bibliográfico para todos aqueles que desejem pesquisar ou elaborar estudos académicos locais e regionais (ou outros), ou simplesmente para recordar alguns aspectos do passado recente, ligados ao concelho de Figueiró dos Vinhos e à região onde se insere.
Estes documentos podem ser consultados, lidos, imprimidos, etc, no site da Biblioteca Municipal em http://www.bmfigueirodosvinhos.com.pt/.

Bissaya Barreto: o Homem por quem o comboio esperava

TóZéSilva 27 Dezembro 2010

Fernando Baeta Bissaya Barreto Rosa nasceu em Castanheira de Pêra a 29 de Outubro de 1886, e faleceu em Lisboa, no “Hotel Metrópole”, a 16 de Setembro de 1974. Era filho de um farmacêutico, que exerceu as funções de Presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande. Foi o pai que o iniciou nas primeiras letras, bem como na apetência para as questões políticas. Até aos 13 anos cresceu no seio de uma família burguesa, típica de um país católico, altura em que vai para Coimbra na companhia de uma criada, a fim de frequentar o Colégio de S. Pedro, que frequenta até ao 5º ano, transitando depois para o Liceu José Falcão, onde, aos 16 anos, termina o 7º Ano com a classificação de “Muito Bom”. Após a conclusão dos estudos liceais ingressa na Universidade de Coimbra, onde se matricula em três cursos em simultâneo: Filosofia, Matemática e Medicina. Em Filosofia, para se satisfazer a si próprio; em Matemática porque estava persuadido de que era a engenharia a carreira vocacionada; e em Medicina para satisfazer as tradições e o desejo da família. Em Coimbra foi sempre um estudante exemplar, onde formou uma personalidade de intelecto diversificado, monopolizando os prémios académicos nos cursos que frequentava, a par com a intervenção ideológica e política. Em 1904 milita no campo Republicano, influenciado tanto pelo grupo «Juventude de Livre Pensamento», como pela Maçonaria, através do prolongamento desta, a «Carbonária». Entre 1906 e 1909 está entre os que fundam, respectivamente, o «Centro Republicano Académico» e a «Loja – A Revolta», que percutirá a criação do «Comité Revolucionário da Carbonária de Coimbra», em vésperas do 5 de Outubro de 1910. Em 1907, recusa prestar provas em protesto contra as medidas de João Franco e como interveniente na Greve Académica, mas recupera no ano seguinte as disciplinas referentes a dois anos lectivos, nos três cursos que frequentava, e sem diminuir as altas classificações de sempre. Aliás, em 20 de Novembro de 1908 seria laureado pelas Faculdades de Matemática, Filosofia e Medicina, na Sala Grande dos Actos. Porém, perante o monarca D. Manuel II recusa-se a receber os prémios, declarando «Não conheço o Rei». Em 1911 licencia-se em Medicina na Universidade de Coimbra, com a classificação de 19 valores e assume o lugar de assistente de cirurgia geral. Já anos antes finalizara os outros dois cursos (Matemática e Filosofia). Faz o doutoramento em Medicina em 30 de Julho de 1915; em 1916 é nomeado Professor Extraordinário da Faculdade de Medicina de Coimbra; em 1918 é Professor Ordinário da mesma Faculdade; em 29 de Outubro de 1956 é jubilado como Professor Catedrático da Universidade de Coimbra. Em 1927, o governo militar saído da Revolução de 28 de Maio de 1926 nomeara-o Presidente da Junta Distrital de Coimbra, cargo que exerceu até 1974. Este cargo colocou-o em contacto com a problemática da assistência pública e inspirá-lo-á a forjar um grande projecto de obra social, multidireccionada, como reflexão das preocupações republicanas em relação à educação nacional e à assistência pública, e que terá oportunidade de concretizar durante a vigência do Estado Novo. De realçar que Bissaya Barreto cultivou ao longo da sua vida uma longa e estreita amizade com outro Professor de Coimbra, António de Oliveira Salazar, amizade tecida desde os primeiros tempos universitários.

Entre 1930 e finais da década de 60, Bissaya Barreto pertenceu a uma vasta lista de Comissões e de Direcções, encarregadas de obras relacionadas com as questões socais, que incluíam a construção de hospitais (com atendimento gratuito), infantários e inúmeras campanhas de saúde, norteado por dar prioridade à resolução dos problemas sociais e assistenciais do país. Politicamente e sob a égide do Estado Novo, fez parte da Comissão Central da União Nacional e foi Procurador à Câmara Corporativa. Todavia, sozinho ou com o apoio institucional e da cúpula do poder consegue, em Coimbra (e na Região Centro) levar à prática a legislação e a filosofia do novo Regime, alinhando com os ideólogos do Estado Novo mas sem se submeter totalmente aos seus princípios, procurando, antes de tudo, praticar os seus fundamentos ideológico-sociais.

Quem o conheceu refere-se a ele como um homem de olhar sereno, voz pausada e gestos suaves. Um homem que encontrava o seu próprio equilíbrio no excesso e no ritmo “frenético” de trabalho que necessitava de manter, como condição necessária para combinar as suas muitas faculdades. Bissaya Barreto era ao mesmo tempo Professor, Cirurgião, Clínico, Planificador e Construtor.

O seu dia começava às 7.30h, quando saía de casa. Antes disso, já tinha reunido com os mestres das (muitas) obras que trazia em construção. Das 8.00h às 10.00h dava aulas de Técnica Cirúrgica na Universidade, começando depois a operar até às 13.00h, hora a que começava a ver os doentes que teria de operar no dia seguinte. Em seguida ia para o consultório, entre as 14.00h e as 15.00h, para receber clientes. Não almoçava, comia torradas e uma chávena de chá entre duas visitas, continuando a atender doentes no consultório até às 21.00h. Saía a essa hora e voltava ao hospital para ver os doentes operados de manhã. Recolhia a casa por volta das 22.00h, onde jantava (aqui sim, a sua grande refeição do dia), após o que dedicava tempo para as suas investigações, a administração das obras e a correspondência (montes de cartas que se acumulavam nas mesas, nas cadeiras, nas estantes, tanto em casa, como no consultório e no gabinete do hospital). E tempo para dormir? “Sabe, tenho um sono magnífico, totalmente reparador de 4 horas por noite”. Quando era chamado de noite de urgência, às vezes para percorrer distâncias com algumas centenas de quilómetros, dormia normalmente na viagem dentro do carro, entre solavancos e ruídos de fundo. Durante o dia e no caso de se sentir cansado, possuía um pequeno compartimento, contíguo ao seu consultório, onde se recolhia durante alguns instantes. Instalava-se numa vasta poltrona onde, passados alguns segundos (na verdadeira acepção da palavra), começava a dormir instantânea e profundamente durante 5 ou 6 minutos. Passado esse tempo reaparecia no consultório, risonho e fresco, totalmente refeito, como se tivesse dormido 2 horas. Possuía uma saúde e uma robustez invejável, ombros largos e firmeza no andar, apesar da frugalidade da sua vida quotidiana. Possuía também uma invulgar e extraordinária memória, que exercia com genial agilidade. Para além da sua energia física, parecia também animado por uma prodigiosa energia moral. Conta Pierre Goemaere, escritor Belga, que o conheceu muito de perto, e que editou um livro em 1942 dedicado a Bissaya Barreto (integrado na colecção os «Grandes Contemporâneos»), que nunca o viu fumar, nem beber, mesmo às refeições, senão chá.

Deslocava-se a Lisboa quase todos os fins de semana para almoçar com Salazar (ficando hospedado no Hotel Metrópole) apanhando o «rápido» (comboio) em Coimbra. Quando Bissaya Barreto se atrasava a chegar à estação, o comboio esperava por ele, e não seguia para Lisboa, sem que o distinto Médico estivesse a bordo. 

É certo que era amigo pessoal dos governantes do Estado Novo e, em especial, de Salazar, e que isso lhe facilitava o aval de quem tinha o poder decisório na capital, desbloqueando verbas financeiras consideradas bem nutridas para a época e que foram canalizadas para Coimbra e para a Região Centro. Mas temos de reconhecer, que a totalidade desses recursos foi exclusivamente utilizada para o bem público.

Bissaya Barreto foi sobretudo um homem de grande dimensão ética e humana, pautado entre o cidadão politico fruto da sua época mas, acima de tudo, pelas concepções sociológicas e pedagógicas que sempre defendeu e com as quais construiu a base da sua biografia. A sua obra reflecte, sobretudo, os traços pessoais de um homem preocupado com os elos mais fracos da sociedade.

Eis, numa breve resenha, aquilo que constitui o legado da sua Obra Social:

 

24 «Casas da Criança»; 4 Maternidades; o «Portugal dos Pequenitos»; 3 Colónias de Férias; 2 Bairros Sociais; 1 Preventório (Penacova); 2 Hospitais psiquiátricos; 1 colónia agrícola psiquiátrica; 1 Leprosaria; 1 Creche/Preventório para filhos de leprosos; 1 Centro de Reabilitação para ex-leprosos; 3 Sanatórios; 1 Instituto Materno-Infantil; 1 Casa-Mãe (Figueira da Foz); 1 Centro Hospitalar (de Coimbra); 1 Hospital Geral Central; 1 Hospital Pediátrico; 9 Dispensários (Central de Coimbra, Arganil, Cantanhede, Lousã, Montemor-o-Velho, Penacova, Góis, Penela e Poiares); Obras de Higiene e Profilaxia Social (com dois Dispensários de Profilaxia de Doenças Venéreas de Coimbra); Brigadas Móveis; Postos Rurais; 1 Instituto de Surdos (Centro de Recuperação em Bencanta); 1 Instituto de Cegos (Centro do Loreto); 1 Centro de Neurocirurgia; Escola de Enfermagem Bissaya Barreto; Escola Normal Social; Escola de Enfermeiras Puericultoras; Escola Profissional de Agricultura, Artes e ofícios (Semide); Aeródromo de Coimbra (Cernache-Coimbra); Estaleiros Navais (Figueira da Foz); o Bairro Económico do Loreto; 1 Fundação com o seu nome.

 [Fontes: AAVV, “Conhecer Bissaya Barreto”, in Revista do Jornal Campeão das Províncias, 08 de Maio de 2008; Barreto, Kalidás, Monografia da Castanheira de Pêra, CMCP, 2004; Castilho, Jorge, “Professor Bissaya Barreto: Um grande Homem, um Homem do Futuro”, in suplemento do Jornal Centro, Novembro de 2008; Goemaere, Pierre, Os Grandes Contemporâneos – Bissaya Barreto, Edição «Casa das Beiras», 1942; Silva, TóZé, O Portugal dos Pequenitos ou a Representação do País no Estado Novo: Um olhar actual sobre um património dos anos 40, 2009 (trabalho de investigação de mestrado); Jornal «O Norte do Distrito», nº 96, Dezembro de 1956 (in Site da Biblioteca Municipal – «Imprensa Nacional»); Site da Biblioteca Municipal – «Figueiró em Imagens».]

A Mariana do Casal de S.Simão (1903-2002)

TóZéSilva 02 Maio 2010

mariana2Chamava-se Mariana da Silva. Nasceu, cresceu, casou, teve filhos, enviuvou e morreu com quase 100 anos de idade. Nasceu no Casal de S. Simão em 16 de Fevereiro de 1903, casou com 25 anos (1928) e faleceu poucos meses antes de completar um século de existência (finais de 2002).
Esta Mulher conheceu somente o restrito mundo onde gravitava a pequena aldeia de Casal de S. Simão, onde viveu toda a sua vida. Uma aldeia serrana beirã, onde o quotidiano era feito à força do trabalho na terra, de sol-a-sol, entre o pastoreio, as hortas, a floresta, a ribeira, o moinho, o lagar, o forno, a eira, a casa humilde, o carrego do estrume e a fecundação das leiras e botaréus. (A mesma vida que levaram as minhas avós e que transporto também no meu *ADN*). Casou com Domingos Jorge e com ele ergueu uma familia que criaram nessa aldeia, na primeira casa, logo à entrada da povoação, do lado esquerdo.
Aqui ficam três tempos diferentes de um rosto, esculpido entre a sua adolescência (foto da esqª), o dia do seu casamento (foto central) e as vésperas da sua morte.
O que é que fica de vidas como esta, como a de Mariana? Quanto tempo dura a chama de uma vida? E quem são os escultores e os artesãos do tempo que moldam as nossas? No entanto (e segundo os testemunhos dos seus familiares) sei que Mariana nunca desistiu de semear sonhos nas suas memórias, da mesma forma obstinada com que semeava as hortas no viço da sua vida.
Aqui fica a minha singela homenagem a todas as “Marianas” deste país, e pelas quais me inclino com admiração.

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