TóZé McSilva Crónicas dum Tempo

A chinese lion statue

Olá a todos!

Que memórias colectivas têm os Figueiroenses mais presentes? Que identidade é que, conjuntamente, soubemos forjar ao longo dos tempos, dentro de um espaço comum e que temos como nosso? Quais são os nossos valores genuínos que nos fazem sentir como Figueiroenses e igualmente como Beirões? E a pergunta mais importante: que património (cultural, artístico, histórico, arqueológico, etnográfico, etc) possuímos e onde está ele, para testemunhar aquilo que somos? Este é um espaço onde se pretende reflectir, com serenidade, sobre estas e outras questões.

A Mariana do Casal de S.Simão (1903-2002)

TóZé McSilva 2 de Maio de 2010

mariana2Chamava-se Mariana da Silva. Nasceu, cresceu, casou, teve filhos, enviuvou e morreu com quase 100 anos de idade. Nasceu no Casal de S. Simão em 16 de Fevereiro de 1903, casou com 25 anos (1928) e faleceu poucos meses antes de completar um século de existência (finais de 2002).
Esta Mulher conheceu somente o restrito mundo onde gravitava a pequena aldeia de Casal de S. Simão, onde viveu toda a sua vida. Uma aldeia serrana beirã, onde o quotidiano era feito à força do trabalho na terra, de sol-a-sol, entre o pastoreio, as hortas, a floresta, a ribeira, o moinho, o lagar, o forno, a eira, a casa humilde, o carrego do estrume e a fecundação das leiras e botaréus. (A mesma vida que levaram as minhas avós e que transporto também no meu *ADN*). Casou com Domingos Jorge e com ele ergueu uma familia que criaram nessa aldeia, na primeira casa, logo à entrada da povoação, do lado esquerdo.
Aqui ficam três tempos diferentes de um rosto, esculpido entre a sua adolescência (foto da esqª), o dia do seu casamento (foto central) e as vésperas da sua morte.
O que é que fica de vidas como esta, como a de Mariana? Quanto tempo dura a chama de uma vida? E quem são os escultores e os artesãos do tempo que moldam as nossas? No entanto (e segundo os testemunhos dos seus familiares) sei que Mariana nunca desistiu de semear sonhos nas suas memórias, da mesma forma obstinada com que semeava as hortas no viço da sua vida.
Aqui fica a minha singela homenagem a todas as “Marianas” deste país, e pelas quais me inclino com admiração.

O valor da honra associado à memória de um ilustre Figueiroense

TóZé McSilva 5 de Março de 2010

sa-ii1Longe de querer lançar ou alimentar polémicas em relação ao busto da Republica, achei que devia homenagear o Escultor Simões d’Almeida (sobrinho) honrando a sua memória através de uma obra que o imortalizou, o busto da República que executou em 1908. Ao fazê-lo, estou simultaneamente a divulgar o concelho de Figueiró dos Vinhos, com os seus valores, a sua história, a sua identidade, a sua memória e o património que nós, Figueiroenses, orgulhosamente possuímos, e outros que urge descobrir e trazer a publico. Valores esses que tudo farei para divulgar, preservar e valorizar dentro das minhas (humildes) faculdades, primeiro junto dos meus conterrâneos e sempre que possível ampliando a minha acção numa espiral cada vez mais alargada, para lá das fronteiras do concelho.
Como tal, venho uma vez mais defender não só a memória mas também a honra desse ilustre Figueiroense, contra os mal-entendidos da história mas sobretudo, contra a subestimação injusta a que a sua extensa e premiada carreira tem sido votada, nomeadamente entre os meus conterrâneos.

Foi a convite do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, Dr. Álvaro Gonçalves, que aceitei, com prazer, tecer a devida homenagem ao Artista no site do Município, facto que ampliei e estendi no meu blogue e neste Jornal. Isto é, usei todos os meios ao meu alcance para divulgar e premiar esse ilustre Figueiroense, no ano em que passam 60 anos da sua morte (02 de Março de 1950) e em coincidência com as comemorações do centenário da República Portuguesa. Esse facto já motivou a vinda de dois jornalistas da Agência Lusa (Casimiro Simões e Paulo Novais), que estiveram na Câmara Municipal para fotografar o busto e entrevistar o Presidente do Município. Por seu lado, o Dr. Henrique Teixeira (Jornal “A Comarca”) prossegue também as investigações em torno do tema. Assim sendo, ficam neste apontamento mais uns quantos esclarecimentos e “achegas” em relação ao busto da República, que orgulhosamente conservamos em nosso poder, por ele assinado e datado - Simões (Sob 1908 -, facto que por si só, deve cambiar a originalidade do mesmo.
Segundo as fontes a que tive acesso, o concurso para a realização do busto da República foi lançado no final do ano de 1910 pela Câmara Municipal de Lisboa e teve o seu desfecho em 1911, com a vitória do busto de Francisco Santos. Em 2º lugar ficou Costa Mota (sobrinho) e em 3º lugar Júlio Vaz. Isto é o que consta do resultado do concurso, em que participaram 9 concorrentes, entre os quais também figurava Tomás da Costa. No entanto, António Valdemar, presidente da Academia Nacional de Belas Artes (ANBA), vem dizer em artigo publicado no “Diário de Noticias”, de 30 de Janeiro último, que “Em 1911, abre-se um concurso público nacional para a criação de um busto da República. Concorrem nove artistas, ganha Francisco dos Santos, outro dos grandes escultores da época, igualmente bolseiro da Academia e que também estudou em Paris e Roma. Simões d’Almeida ficou em segundo com uma peça que partiu da que fez para a câmara, mas que teve de alterar porque o regulamento exigia inéditos”.
Por sua vez, em recente entrevista publicada na Revista “Domingo” do “Correio da Manhã”, Cutileiro (Escultor) afirma, em tom polémico, que “depois foi utilizado o busto de um tipo que nem em terceiro lugar ficou. Se calhar era sobrinho de um ministro, ou equivalente. A cunha clássica, no sentido das influências do poder estabelecido(…)”. O “tipo” a quem ele se refere, subentende-se que seja Simões d’Almeida, cujo busto foi adoptado e largamente difundido pelo País, apesar de não ter ganho o concurso oficial, sendo este facto amplamente conhecido.
Eu tenho que admitir que neste ponto não há coincidência factual, isto é, o Presidente da ANBA diz uma coisa, o resultado do concurso demonstra outra e Cutileiro, por sua vez, vem a publico (de forma pouco elegante) lançar mais uma teoria, para não falar noutras fontes consultadas, nomeadamente o “Dicionário de Escultura Portuguesa”, que dedica 4 páginas a Simões d’Almeida sobrinho, e que lhe dá como certa a conquista do 2º prémio nesse concurso.
Tenho para mim, que Simões d’Almeida não participou de forma “oficial” no concurso, por causa da cláusula que exigia uma peça original. Porém, só consultando as actas do evento, e que a existirem deverão estar no arquivo da Câmara Municipal de Lisboa (ou noutro), é que ficaríamos devidamente elucidados sobre esse assunto.
No entanto, a “farpa” que Cutileiro tece acerca da cunha que teria beneficiado certo “tipo”, e no caso de se estar a referir a Simões d’Almeida sobrinho, parece-me injusta, inapropriada e infundada. A única cunha que poderia ter valido ao Escultor era o facto do tio, na época, ser o director da Escola de Belas-Artes de Lisboa (tinha sido nomeado para esse cargo em 1905).
Contudo, Cutileiro não tem em consideração alguns detalhes muito importantes: o primeiro busto da República apareceu em 1908 pelas mãos de Simões d’Almeida e como tal não precisava de cunha nenhuma, em 1910 ou 1911, para ser reconhecido (também) por isso. Era um facto consumado, o pioneirismo da criação do busto da República pertencia-lhe por direito. A ele estaria sempre associado o vanguardismo em relação a esse símbolo Republicano. Era difícil suplantar a carga emocional que o tempo cimentara na memória dos Republicanos, que desde 1908 tinham uma imagem emotiva relacionada com o busto criado por Simões d’Almeida, e que a iconologia tendencialmente liga à mulher portuguesa. O Escultor era desde há muito tempo sobejamente conhecido nos meios Republicanos, para mais, foi ele quem executou em 1906, a medalha com que os médicos e congressistas portugueses homenagearam o Professor Miguel Bombarda (um dos heróis da República) aquando do XV Congresso Internacional de Medicina.
Quanto ao busto que se encontra na Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos tem para mim uma explicação simples e lógica:
O tio do Escultor (José Simões d’Almeida Júnior) oferecera anos antes à Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos o modelo em gesso que servira para executar o Cristo crucificado e que se encontra na Sala do Capitulo do Mosteiro dos Jerónimos (onde se encontra o tumulo de Alexandre Herculano). Essa escultura foi, inclusivamente, “estrela” aquando da inauguração da remodelada Igreja Matriz (a inauguração foi em 21 de Junho de 1903), cujas obras foram levadas a cabo pelo “traço” do Arquitecto Luís Reynaud. Lá está o Cristo em agonia, modelado em tamanho natural e encarnado (pintado) por José Malhoa, grande amigo do escultor (Tio).
Simões d’Almeida (sobrinho), que tinha no tio uma referência fundamental (reforçada pelo facto de ser também seu padrinho de Baptismo), terá tido gesto idêntico ao do seu familiar, decidindo oferecer ao Clube da sua terra natal o busto da República que executara em gesso, e que acredito ter sido o primeiro ensaio que o Artista modelou em 1908 para a realização do busto, que está no Palácio de S. Bento.
Caso eu esteja errado, será sempre com orgulho que mostraremos esta obra de arte feita por um filho da terra e que por conseguinte, dignifica o nosso concelho e tem potência para o divulgar.

(Deixo aqui o link onde consta a entrevista de Cutileiro ao Jornal Correio da Manhã, para que cada um avalie por si: http://www.cmjornal.xl.pt/Enviar.aspx?channelid=00000019-0000-0000-0000-000000000019&contentid=93429532-89B5-4AEE-B23B-F013F73F5AAA)

Simões d’Almeida (sobrinho) modelou o busto da República em 1908

TóZé McSilva 18 de Fevereiro de 2010

busto_1908_saO busto original da República Portuguesa, símbolo do republicanismo português, foi modelado em 1908, dois anos antes da proclamação da República, e foi criado por um Artista de Figueiró dos Vinhos: o Escultor Simões d’Almeida (sobrinho).

Em Fevereiro de 1908 eram assassinados no Terreiro do Paço, em Lisboa, o rei D. Carlos e o herdeiro ao trono, o Príncipe Real D. Luís Filipe de Bragança. Com a morte dos dois estadistas era também decepada a monarquia portuguesa, que entraria numa lenta agonia, que duraria cerca de dois anos e meio, até 5 de Outubro de 1910.
Porém, a paixão republicana entraria também numa época de ansiedade e incerteza quanto ao futuro da sua fé doutrinal. O país conservava-se monárquico, tendo nessa instituição secular a sua referência política. O rei continuava a ser a imagem do chefe da nação, num regime que se renovava providencialmente. As lutas entre monárquicos e republicanos não extravasavam para muito longe de Lisboa, a não ser nas cidades mais importantes, onde se concentrava a intelectualidade e o alfabetismo oficial do reino. O resto da nação permanecia campesina, piolhosa, esfomeada, supersticiosa e paroquial até às entranhas. Aceitava dócil e reverencialmente as indicações do padre-cura, do regedor, do tabelião e do cabo de ordens. Observavam o preceituado nos forais com tanta solicitude, como o respeito e a veneração ao direito canónico, ora tementes aos senhores das terras, ora a Deus todo-poderoso. O primeiro regulava-lhes as relações comunitárias e o segundo, os princípios morais.
O país havia de mudar mas não em 1908 à custa do sangue do chefe da nação e do seu herdeiro. Havia de mudar mas através da força dos ideais que forjam futuros diferentes, assentes na fé em torno de novos símbolos, que não fossem nem a coroa, nem o ceptro.
Um desses símbolos nasceu em meados do ano de 1908, dois anos antes da vitória definitiva e da implantação do regime Republicano, sob as mãos de um Artista nascido no concelho de Figueiró dos Vinhos e que, mesmo não sendo político, estava embebido de republicanismo até à medula e crente nos seus princípios, o grande Escultor Simões d’Almeida sobrinho.
Este Escultor representa a coragem de um punhado de artistas, que não hesitaram em colocar o seu dom e a sua inspiração criadora ao serviço dos ideais que defendiam para o colectivo português, consciente do elevado risco do seu acto, sobretudo num período de forte contracção política, convulsionado ainda pela histeria do regicídio de Fevereiro desse ano.
O Escultor Simões d’Almeida sobrinho nasceu em Figueiró dos Vinhos em 17 de Junho de 1880. Era um homem culto e foi no seio de uma família de grandes génios criadores que seria influenciado para as Artes. Inevitavelmente, colheu a inspiração máxima no seu tio, o conhecido e reputado Escultor, também nascido em Figueiró dos Vinhos - Simões d’Almeida Júnior (Tio) – de quem teve aulas de Desenho na Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde ingressou precocemente em 1893, com apenas 13 anos, tendo-se iniciado em estatuária 4 anos depois, curso que concluiria em 1903. No primeiro ano lectivo desse curso, aos 17 anos, obteve a medalha de prata com 18 valores, facto que repetiria no ano seguinte, iniciando um vasto curriculum onde acumularia muitos e valiosos prémios, distribuídos ao longo da sua longa e produtiva carreira Artística. À semelhança do tio, estudou em Paris e Roma durante 3 anos como bolseiro do Estado e foi Professor na Escola de Belas-Artes, em Lisboa.
No ano conturbado de 1908, Simões d’Almeida era já um artista consagrado e reconhecido pelo seu talento, quando o elenco republicano do presidente Braamcamp Freire, bem como o vereador Ventura Terra (grande arquitecto do Palácio de S. Bento) lhe fazem uma encomenda para um busto, para ser colocado na Câmara dos Senadores, no Palácio de S. Bento. Aceita plasmar no gesso o símbolo da República, desse regime que significava liberdade, fraternidade e igualdade. Paixão ideológica que entusiasticamente partilhava nos círculos intelectuais e artisticamente mundanos da capital. Um símbolo que nascesse generosamente das suas mãos, da Arte que magistralmente cultivava, e que alegorizasse apaixonadamente esses novos valores patrióticos. Mas também tinha que ser um símbolo facilmente entendível à generalidade do povo português, saído desse mesmo povo, transformado em novo discurso ideológico, que se propagasse e contaminasse toda a nação portuguesa.
Desta forma, Simões d’Almeida, fechado no seu ateliê, afeiçoa ao gesso um dos mais consagrados símbolos revolucionários de então, o «Busto da República», materializado nas feições de uma jovem mulher do povo, de olhar sereno, resoluta e decidida, imanente de sensualidade recatada, na observância da linha clássica, com o barrete frígio descaído sob a cabeça alevantada, e que toma por emblema da liberdade da Pátria e da República, inspirando-se nos ideais da 1ª República Francesa e dos revolucionários de 1793. Executa o busto com paixão e assim que o termina, corajosa e convictamente apõe-lhe a sua assinatura e a data – Simões (Sob 1908 -, divulgando-o abertamente dentro dos círculos republicanos e que nesta altura enxameavam a capital do país. Assim, desde 1908, o movimento passava a ter um símbolo que facilmente se ampliava e popularizava entre os adeptos do culto Republicano.
A comprovação deste facto teria lugar no 2º dia de vida da embrionária nação republicana portuguesa, em 6 de Outubro de 1910. Nesse dia, o busto da República criado por Simões d’Almeida viria a ser utilizado durante um dos primeiros actos oficiais do governo provisório republicano, nos funerais de dois vultos da jovem República, Cândido Reis e Miguel Bombarda.
E nem o concurso público lançado pela Câmara Municipal de Lisboa em 1910, visando a criação de uma imagem oficial que representasse a República, a ser utilizada nas cerimónias relacionadas pelo novo regime (e cujo prémio foi conquistado por um colega e amigo do Escultor, Francisco Santos) retiraria ao busto de 1908 a aura e a fama popular que granjeara. Seria o busto de Simões d’Almeida que contínua e profusamente se difundiria para fins propagandísticos em medalhas e moedas, bem como a que figuraria em todas as reproduções oficiais ou oficiosas. Afinal, tratava-se de um símbolo criado em 1908, em plena efervescência revolucionária, cuja imagem se popularizara e divulgara desde essa altura, e que fora naturalmente adoptada, tanto pelas grandes figuras da 1ª República Portuguesa, como pelos partidários republicanos em geral. Para mais, Simões d’Almeida veria o seu modelo para a nova moeda republicana, o «escudo», ser aprovado em 1911. Nesse ano ainda venceria o concurso para a lápide comemorativa (em baixo-relevo) da «Proclamação da República» e que seria colocada na escadaria da Câmara Municipal de Lisboa. Em 1912 venceria o concurso para as novas moedas de $4 e $20, destinadas a comemorar a implantação da República. Todas estas criações eram baseadas e inspiradas na imagem da sua «República».
O «Busto da República» original de 1908 ofereceu-o em 1911 a um clube da sua terra natal, o «Clube Figueiroense» da Vila de Figueiró dos Vinhos, numa acção de profundo afecto pela terra que o vira nascer e donde era originária a sua família.
Orgulhando-se desse facto, esse busto original, assinado e datado por Simões d’Almeida sobrinho, encontra-se exposto no Gabinete da Presidência da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, em memória de um Artista que soube ter uma visão premonitória acerca do futuro da sua pátria, e que ousada e prematuramente não hesitou em transformar em símbolo de toda uma nação.

(Bibliografia consultada: Comissão Municipal de Turismo, Figueiró dos Vinhos Estancia de Turismo, 2ª Edição, Figueiró dos Vinhos, 1938, in site da Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos (http://www.bmfigueirodosvinhos.com.pt/docs/estancia_de_turismo_1938.pdf, ultima consulta em 16 de Fevereiro de 2010); Lello, José, Edgar, Dicionário Lello Universal, Ed. Lello & Irmão, Vol. 1, Porto, 1977; Matias, Maria Margarida C. G. Marques, “O Naturalismo na Escultura”, in História da Arte em Portugal – Do Romantismo ao fim do Século, Vol.11, Ed. Alfa, pp. 147-148; Medeiros, Carlos, Figueiró dos Vinhos Terra de Sonho, CMFV, 2002; Pereira, José Fernandes (dir.), Dicionário de Escultura Portuguesa, Ed. Caminho, Lisboa, 2005; Rede Municipal de Bibliotecas Públicas do Concelho de Palmela, 1ª Republica Dossier temático dirigido às Escolas, Novembro de 2009; Reis, António (Dir.), Portugal Contemporâneo, Selecções do Reader’s Digest, Publicações Alfa, Vols. 1 e 2, Lisboa, 1996; Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Página Editora, Vol. 29, p.64); Pereira, António Pedro, Busto - A República começou por perder a cabeça a concurso, in DN Artes, consultado em http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1482690 (última consulta em 18 de Fevereiro de 2010).

Uma longa história de “Planos” para Figueiró

TóZé McSilva 19 de Janeiro de 2010

planos_imagem_jpegDe 1943 aos nossos dias: “Planos”, “Planos”… e mais “Planos”!

Não foi por falta de “Planificação”que a vila figueiroense não cresceu ou não se transformou no seu aspecto urbanístico. Pelo menos desde 1943, e com mais incidência desde 1969, muitos e variados “Planos” foram imaginados, idealizados, desenhados, divulgados, etc. Todavia, é bem visível que a vila pouco ou nada cresceu, mantendo a sua configuração de há décadas, apesar de todos os Planos e Estudos de Urbanização de que foi alvo nos últimos 40-50 anos. Que factor ou factores, não permitiram que isso acontecesse, apesar de tantos “Planos” que foram feitos ao longo do tempo? Este artigo é um ensaio que procura obter algumas respostas para esse facto.

Em 1943, no seu livro «Doze Anos de Administração Autárquica», o Dr. Manuel Simões Barreiros apresenta uma planta daquilo que pretendia ser o primeiro Estudo Urbanístico para a vila de Figueiró dos Vinhos, planificando e reordenando uma área com cerca de 5 hectares. O presidente Barreiros sairia 4 anos depois sem ter colocado em prática a sua “imagem” de futuro para a sede do concelho.
Em Setembro de 1969, a Câmara Municipal, sob a presidência do Dr. Henrique Lacerda, deliberou mandar elaborar um novo Plano de Urbanização, objectivando defender o aspecto urbanístico e disciplinar a actividade da construção civil no concelho. Incumbiu-se o eminente Professor Costa Lobo desta tarefa, que aceitou gizar um plano visando a implementação de uma nova dinâmica urbanística, a modernização e a promoção do concelho Figueiroense. Os trabalhos realizados foram apresentados em Fevereiro de 1971 na Câmara Municipal.
Cerca de uma década depois, em 1982, a Câmara Municipal sob a presidência do Sr. José Simões de Abreu apresenta uma nova proposta de Urbanização para a vila, denominado «Plano Geral de Urbanização da Vila de Figueiró dos Vinhos». O Plano visava ordenar a expansão urbanística da vila, integrando-a sectorialmente, ambicionando a sua modernização e dinamização socio-económica. Este Plano de Urbanização conheceria o seu desenho definitivo em 1986.
Após outra década passada, em Fevereiro de 1995 e sob a presidência do Dr. Fernando Manata, é aprovado o Plano Director Municipal do Concelho de Figueiró dos Vinhos, tornando-se o instrumento administrativo mais importante para o território concelhio. É sob a pauta e a batuta do PDM que o concelho se disciplina, ordena e orienta tanto a nível do seu espaço-território, como ao nível das suas expectativas sócio-económicas. Também é verdade, que o Dr. Fernando Manata foi o Presidente de Câmara que mais Planos de Pormenor mandou elaborar para a vila Figueiroense, entre eles, o Plano de Pormenor dos Olivais; o Plano de Pormenor da Madre Deus e o Plano de Reordenamento do Cabeço do Peão (este de cunho económico-turistico), visando a dinâmica da sede concelhia; a sua expansão ordenada; a criação de novas áreas habitacionais, de serviços e outros equipamentos; novas vias de circulação interna; novas valências turísticas, etc. Conclusão: houve pelo menos 4 Presidentes de Câmara que “desenharam” no papel as imagens que idealizaram para o futuro da vila, em consonância com as suas épocas e com a legislação regulamentar que imperava. Honra lhes seja feita! No entanto, e exceptuando alguns espaços que foram sendo gradualmente ocupados, nenhum “Plano” logrou vingar como orientador de uma profícua expansão da vila, que tivesse sido ordenador do espaço da urbe, que tivesse servido como mola ao desenvolvimento do seu tecido urbano, que tivesse suscitado uma real dinâmica sócio-económica à sede do concelho, que tivesse alterado a sua “imagem”, com novas áreas, com um aspecto mais moderno e menos envelhecido, isto é, do muito que se planeou, pouco ou nada se executou. É costume ouvir-se, de alguém que não visite a vila há algum tempo, que “isto pouco ou nada mudou!” O que estas pessoas querem dizer, é que a vila, no seu todo, apresenta-se sem alterações de fundo dignas de registo. Chegados aqui é legitimo perguntar: Foram os técnicos que elaboraram planos demasiado ambiciosos para a vila? Foram os Presidentes de Câmara que não os souberam gerir e implementar? Foi a falta de financiamento para os mesmos? Foram os proprietários dos terrenos que emperraram as negociações em relação às suas parcelas, onde os planos iam recair? Foi a mudança dos governos autárquicos, que foi “relegando” planos por despeito politico, substituindo-os por outros? Foi a legislação e os regulamentos, que são constantemente alterados neste país? Foi a falta de aprovação oficial dos mesmos? Foram os Presidentes de Câmara que não tiveram tempo de os implementar? Foram as equipas técnicas que demoraram demasiado tempo a elaborá-los, não concernentes com a dinâmica legislativa e com a realidade do concelho, fazendo com que os planos “perdessem a sua validade” inicial? Mas afinal, o que foi que constrangiu a execução de tantos “Planos”? E porque razões não serviram eles para tornar a vila e o concelho mais “visível”, com uma “imagem” diferente? O que é que faltou a todos esses “Planos” para vingarem?
Tenho para mim, que um “Plano”, antes de tudo, deve estar de acordo com as estratégias de desenvolvimento que se julguem mais favoráveis para a vila – e para o concelho – devendo reflectir nos seus desenhos, as medidas e acções que irão pôr em prática essas estratégias. Isto é, tem que ser coerente e estar ligado com outro “documento” não menos importante, aquele onde devem estar claramente estudadas e estruturadas as directivas para o desenvolvimento futuro da vila e do concelho, delineadas de forma realista. Não basta ter uma planta urbanística “bonita”, “equilibrada” e “atraente”, com sectores definidos, com um regulamento definidor de índices construtivos (etc) e acreditar que esse “Plano”, só por si, seja suficiente e imprescindível para garantir uma certa imagem de futuro à vila. Um Plano de Urbanização, ou um Plano de Pormenor, deve também mostrar, por detrás da leitura do seu desenho, uma ideia de coerência com a alma económica, social, cultural e ambiental da nossa comunidade e do nosso concelho. Antes de qualquer desenho, é necessário definir as bases estratégicas de desenvolvimento para a vila, tendo em conta uma clara perspectiva económica, e a sua real dinâmica, previsível num futuro próximo. Senão ninguém acreditará em “Planos” nenhuns, nem eles terão substância para vingarem, nem contarão com o entusiasmo da população, que sempre desconfiará da sua funcionalidade e, mais importante, da real necessidade dos mesmos. Serão sempre “Planos” sem alma. É também importante referir, que um “Plano” não deve contribuir para aumentar a especulação imobiliária no concelho mas, infelizmente, todos nós sabemos os preços exorbitantes que os terrenos e os apartamentos atingiram no nosso meio. Para que isso não aconteça, as Câmaras, antes de pensarem em Planos de Pormenor ou de Urbanização, devem adquirir previamente aos privados os terrenos necessários e só depois traçar neles “desenhos” e “planificações”, vendendo depois os lotes a preços mais aceitáveis, a fim de garantir, pelo menos, uma certa fidelização populacional, que estimule e contribua para a dinamização do ambiente sócio-económico da sede concelhia. É por tudo isto, que desde 1943, temos andado às voltas com tantos estudos urbanísticos para a vila (e para o concelho) e que já detêm um longo historial de “ideias” mas que infelizmente nunca passaram do papel. É que, o futuro, a alma e o motor de qualquer desenvolvimento, seja lá em que concelho for, são as pessoas e as respostas às suas expectativas, e estes dois elementos têm sido constantemente desvalorizados neste tipo de estudos, sobretudo quando pretendem ser de cariz futurista.

O Natal de outrora nas aldeias rurais: Casal de S. Simão e Ferraria de S. João

TóZé McSilva 23 de Dezembro de 2009

aldeiasAlpendoradas ou estendidas sobre as encostas, as nossas aldeias serranas beirãs celebravam a véspera de natal de forma comedida e simples, reunindo a familia em volta da lareira, na noite em que nascia o “Deus Menino”. Dos telhados do casario e das chaminés revestidas a xisto, elevava-se o fumo do madeiro que aquecia a consoada, diluindo-se no firmamento da noite orvalhada ou por entre a floresta que orlava a aldeia. Os campos agrícolas, nesta época do ano, encontravam-se em poisio; as sementes esperavam nas arcas para um novo ciclo de fecundação, e neste meio-tempo, os aldeões usufruíam de um descanso forçado mas compensador, junto do fumeiro e do borralho da lareira.
Pelo entardecer, a aldeia prepara-se para receber a noite especial, numa atmosfera serena que envolve o casario, em recolhimento familiar, apenas quebrado pelo chiar das rodas da última carroça carregada com pasto verde destinado ao curral, onde se cria o porco, a cabra e a ovelha. O “Broas” foi o ultimo a sair das hortas. Teimou em dar a volta à courela, a ver muros e parreiras antes de subir à aldeia com o molhe de ervas para dar aos animais, sim, porque isto de ser natal, não dá descanso à labuta da familia, e as pobres criaturas também são filhas de Deus. Já cai a noite sobre a aldeia de pedra quando as mulheres se preparam para fritar as “filhós”, destapando um alguidar cuidadosamente abafado com uma manta, que contém a massa que levedou toda a tarde. Na noite de natal, a cozinha humilde do aldeão torna-se o centro do mundo, onde a familia se prepara para cumprir a tradição gastronómica da região, e que ainda hoje se mantém, cozendo a pratalhada de bacalhau com batatas e couves, tudo bem regado com o azeite novo, manjar que era acompanhado com a única guloseima da noite, as “filhós”, e que recheavam a casa com o seu aroma frito-doce. Não havia troca de presentes ou coisa que se assemelhasse. Havia sim, as preces ao menino que nascia nessa noite fria e que se afagavam no seio da familia, sussurrando a Deus para que a vida continuasse e se concretizasse em pleno.
Na aldeia, a noite e o dia de Natal eram consagrados à renovação de um novo ciclo de esperança em torno da familia, da casa e do calor do lar humilde, simbolizado pelo braseiro que emanava da lareira e que unia os elementos naturais e espirituais, exorcizando os infortúnios da parentela comunitária. Os restos que sobravam do grande madeiro, que ardera toda a noite, eram recolhidos e guardados como relíquias naturalmente abençoadas, para serem utilizadas durante o ano novo que se avizinhava, para quando as cabras não pariam ou para acalmar a ira dos céus em dias de forte trovoada.
Ao contrário do Natal, não se ligava ao “fim-de-ano”, que era considerado um dia normal para a comunidade aldeã. Excepção feita ao S. Martinho, muito ligado à prova do vinho novo, num ritual que era apanágio de todas as casas, que deviam ter uma adega bem fornecida, símbolo económico-social da aldeia e do valor do trabalho das suas gentes.
Ao contrário dos nossos tempos, o natal nestas aldeias, entre as décadas de 30 e 60 do século passado, não era motivo para mesas fartas, troca de presentes e outros excessos consumistas. Não havia árvore de natal, nem presépio ao canto da sala, nem prendas prometidas pelo pai natal, nem bolo-rei a emoldurar a mesa do camponês. A aldeia não tinha as ruas iluminadas, nem enfeites natalícios pendurados nas portas das casas. O natal era natural na sua simplicidade e genuíno na sua consagração. O único “luxo” era o tradicional bacalhau com batatas, cozido à lareira com a fé em brasa, numa grande panela de ferro enegrecida, e as deliciosas “filhós”, polvilhadas de açúcar e que faziam os petizes lamber as pontas dos dedos. Nesse dia, os aldeões cumpriam também outra tradição, restringindo as suas refeições apenas a duas – comendo só de manhã e à noite – sugestionados por um ditado popular, que regia um costume antigo e que se esforçavam por respeitar, nem que fosse pela filosofia vernácula que pendia sobre os prevaricadores: “quem come carne na véspera de natal ou é burro ou é animal!”

O vanguardismo de Figueiró dos Vinhos há cerca de 50 anos

TóZé McSilva 29 de Novembro de 2009

publicid_anos_50_60Regista-se, que em meados da década de 60 do século passado, havia em Figueiró dos Vinhos os seguintes estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços: 10 armazéns de lanifícios; 2 armazéns de malhas e atoalhados; 12 estabelecimentos de fanqueiro (comerciantes de fazendas de algodão, linho, lã, etc); 15 mercearias; 3 casas de materiais de construção; 3 serrações de madeiras; 1 indústria de recauchutagem de pneus; 2 fábricas de lanifícios; 2 fábricas de cerâmica; 2 padarias; 5 cafés; 1 hotel; 3 pensões; 5 casas de pasto; 10 sapateiros; 1 correeiro; 1 ferrador; 4 barbearias; 2 casas de artigos eléctricos; 2 ourivesarias; 3 papelarias; 3 farmácias; 1 drogaria; 1 lavandaria-tinturaria; 4 alfaiatarias; 7 modistas; 2 depósitos de tabaco; 3 estúdios de fotografia; 2 estações de serviço de combustíveis; 2 agências bancárias (BESCL e CGD); 4 oficinas de reparação automóvel; 1 Escola de Condução; 1 colónia de férias (do BNU); 4 lagares de azeite; 1 destilaria de aguardente; 3 aviários; 2 talhos; 2 casas de bicicletas; cerca de 50 tabernas; 2 centrais de despachos com ligação à C.P; 8 táxis; 1 empresa de camionagem (“das de maior percurso”); 1 Hospital sub-regional; Escola “Secundária”; Casa do Povo; Tribunal Judicial; Casa da Criança; Estancia de Turismo classificada.
Assim, no início da década de 60 do século passado, Figueiró dos Vinhos vivia um período de algum progresso comercial e industrial. A vila – e o concelho – proporcionava aos seus habitantes um leque variado de estabelecimentos de comércio, indústria e serviços quanto bastasse, permitindo-lhe ser auto-suficiente em torno da sua própria economia local. Não se pense que tudo girava em meia-dúzia de monopolistas que açambarcavam a oferta de mercado. Antes pelo contrário, confirma-se que havia concorrência sobretudo na vertente comercial. À população era facultado um leque variado e diversificado de escolha. Mas o melhor de tudo isto, é que rareavam as falências ou o encerramento compulsivo de lojas comerciais por falta de clientes ou por míngua do negócio. Tal como é vulgar dizer-se, “dava para todos!”
Quem não se lembra, do corrupio dos empregados dos “armazéns de fazendas” que se gerava ao final das tardes, munidos de carrinhos de rodas carregados de encomendas, cirandando na Rua Dr. Manuel Simões Barreiros rumo à “estação das camionetas” ou aos Correios, para serem despachadas?!
Quem não se lembra do cheirinho a café fresco, que emanava do interior das mercearias, e das contas feitas a lápis no pacote de papel pardo, onde o merceeiro acondicionava o açúcar, a farinha, etc, a peso?!
Quem não se lembra dos “galões” e dos “bolos de arroz” que se lanchavam num certo café, que ficava por debaixo dos Correios, onde hoje fica a Caixa Geral de Depósitos?!
Quem não se lembra do apito das sirenes das serrações de madeiras, tão característicos, marcando o horário de trabalho?! Quem não se lembra do “paquete” à porta do Hotel Terrabela cumprimentando quem passava?! Quem não se lembra da barbearia do Sr. Manuel Rosa e do cheiro a after shave que dela emanava, de cada vez que lá entrávamos para comprar o jornal?!
Quem não se lembra das carroças e das carrinhas carregadas de azeitona rumo aos lagares, e do cheiro característico da laboração lagareira?!
Eu lembro-me de tudo isto! Contudo, as gerações mais novas já têm outra dimensão imagética da vila Figueiroense, e para eles nada disto detém carga nostálgica, como para aqueles que viveram de perto estes tempos mais recuados, cuja memória e identidade individual são seduzidas de forma automática, por uma esquina, um nome, um símbolo, uma rua, um odor e que fazem despoletar fácilmente as nossas recordações, principalmente às gerações “de outros tempos”. A recordação é um processo dinâmico, centrado e despoletado por motivações individuais, cujos arquivos estão encerrados na memória individual de cada um, de acordo com a sua vivência no seio de uma comunidade, num certo lugar e numa certa época. Todavia, a chamada «memória colectiva», é o registo de uma série de factos e acontecimentos que as comunidades pretendem preservar, a fim de os transmitirem às gerações futuras, para que estas saibam donde vêm, a quem “pertencem”, e que lhes sirvam de referência na construção das suas identidades individuais, motivando-os a darem continuidade e vitalidade à comunidade de origem.
Desta forma, e para que conste também na memória das gerações mais novas, aqui fica o registo de uma certa vitalidade “buliçosa”, de um certo empreendedorismo corajoso, de uma certa originalidade dinâmica, de um certo investimento apontado na direcção certa, que se foi fomentando, subsidiando, apoiando, gerando, reproduzindo, até vingar numa certa época, numa certa conjuntura, e que identificava esta vila, há cerca de 50 anos, como uma “vila de vanguarda” para a região. De lá para cá, o que é que se perdeu? O que é que se ganhou?
Também é certo que o concelho não dispunha de piscina municipal, praias fluviais, pavilhões gimnodesportivos, postos médicos nas freguesias, boas acessibilidades (IC8), etc. Mas também é verdade, que tais infraestruturas não chegaram para fixar ou atrair população ou impedir que o comércio e a industria local definhem desalentadamente. Acho que andamos todos errados há imenso tempo. Alguma vez existiu uma estratégia de desenvolvimento local sustentado para o concelho? Sabemos quais são os nossos agentes de desenvolvimento local? Estão identificados? Há um programa de intervenção claro e estruturalmente delineado, para os potenciais intervenientes sociais e económicos do concelho? E quem são esses intervenientes, estão definidos? Os investimentos públicos são estruturantes e interligados com a especificidade do concelho e com possíveis investimentos económico-privados ou publico-privados? Quais são as características e potencialidades económico-sociais do nosso concelho? O que tem impedido e condicionado os investidores para não investirem no nosso concelho? O mapa económico do concelho e da região está identificado? Em suma, saber quais são os factores que têm estrangulado o desenvolvimento do concelho? E quais os que têm sido subestimados? Este conjunto de questões é a minha humilde contribuição para o debate.
Lembro contudo, que o concelho Figueiroense tinha nas décadas de 50-60 cerca de 12.000 habitantes, e que só a freguesia de Figueiró dos Vinhos possuía cerca de 6.000 residentes, quase tantos como aqueles que actualmente habitam em todo o concelho. Assim sendo, são dessa época os números que apresento, relacionados com o comércio, a indústria e os serviços e que granjearam vitalidade à vila e ao concelho, para que se recordem dinamicamente, sem saudosismos bacocos, mas sobretudo para que sirvam como objecto de reflexão em torno do que queremos para o futuro das nossas terras do interior beirão, e que tem de ser necessariamente encadeado com o nosso passado, com a nossa identidade, com os nossos recursos endógenos e com tudo aquilo que pode brotar deles e de nós.

(Nota: a imagem inserida neste artigo, contém anuncios publicitários da década de 50 e 60)

O “velho” Bombeiro de 1936 e a Cadete-bombeiro de 2009

TóZé McSilva 24 de Novembro de 2009

jose-canario_irisO “velho” Bombeiro de 1936 e a Cadete-bombeiro de 2009

A foto mostra duas gerações muito diferentes, contudo os cerca de 80 anos que separam estas duas personagens, demonstram e confirmam idêntica entrega à mesma causa comum: servir a comunidade através dos Bombeiros Voluntários, de forma generosa, abnegada e desinteressada.
O senhor que está na foto chama-se José de Oliveira Canário, tem 94 anos de idade e fez parte do primeiro e organizado Corpo Activo, da oficialmente instituída Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Figueiró dos Vinhos, no longínquo ano de 1936. Ele é o derradeiro elemento desse fantástico grupo que usou uma farda, ostentando ao peito o emblema da Corporação Figueiroense.
A jovem que está ao seu lado é a Íris Sofia Ferreira da Silva Lopes, tem 17 anos e é uma (recente) cadete dos Bombeiros Voluntários de Figueiró dos Vinhos, na senda de uma vocação familiar, uma vez que o pai, a mãe e o irmão, também se incluem no Corpo Activo desta prestigiada Associação Humanitária.
A foto foi tirada junto à primeira «bomba-de-incêndios» que chegou a Figueiró dos Vinhos durante a década de vinte do século passado. José Canário lembra-se bem dela, porque muitas foram as vezes que a puxou (ou empurrou!), suando e arquejando, com mais cinco camaradas, tantos os que eram necessários para a deslocar “rapidamente” até ao local do incêndio.
Foi com muita emoção que reviu o velho “veiculo”, agarrando-se a ele assim que lhe pôs a vista em cima, com uma lágrima ao canto do olho, revendo através desta peça de museu, as faces dos seus saudosos amigos e camaradas, desfiando nomes e momentos inesquecíveis e que marcaram a sua plena juventude. Não os vemos nesta foto mas foi como se estivessem estado todos ali, abraçados ao “velho” Bombeiro, na habitual algazarra de mais um retrato de grupo.
Muitas são as histórias que conta, muitos são os factos que revela e que confirma, possibilitando-nos contar a sua – a nossa – história colectiva, de um certo tempo e de uma certa relação singular com o nosso passado Figueiroense. Tempos incríveis e que recontarei na «História dos Bombeiros Voluntários de Figueiró dos Vinhos», que estou a escrever.
Hoje, os Bombeiros Voluntários encontram-se a “anos de luz”da época em que José Canário fez parte da Corporação. Actualmente, o voluntariado nos Bombeiros encontra uma Instituição onde os jovens podem colher oportunidades de formação em várias áreas, tornando-os homens e mulheres multifacetados, no conhecimento e na assimilação de competências técnicas extraordinárias e complexas, ministradas na Corporação, com o objectivo de servirem a comunidade com eficácia e profissionalismo crescentes, enriquecendo o voluntariado que professam e ao qual se devotam. Posso apontar que são ministrados nos Bombeiros Voluntários os seguintes Programas formativos: salvamento e desencarceramento; tripulantes de ambulância de transporte (e que inclui “primeiros-socorros”); incêndios urbanos e industriais; incêndios florestais; conhecimentos técnicos em electricidade, hidráulica e construção civil; busca e salvamento; ventilação táctica; segurança e protecção individual; técnicas de ambulância de socorro.
Nada ganham, a não ser o nosso orgulho e admiração quando os vemos passar, a que acrescento o enorme e infindável respeito que todos lhes devemos, quando eles avançam, de dia ou de noite, para as serras transformadas em braseiros ou nas ambulâncias em emergência para os hospitais. O serviço de saúde que actualmente prestam faz deles uma espécie de “anjos da guarda” da comunidade, e falo com conhecimento de causa, aquando do atropelamento que o meu sogro sofreu recentemente e pela forma pronta como foi assistido numa das ambulâncias, por elementos dos Bombeiros Figueiroenses com formação em socorro pré-hospitalar.
Quanto ao José Canário, este fica agarrado para sempre à memória desta Associação, assim como todos aqueles que briosamente a serviram nas últimas quase oito décadas.
Este artigo serve, sobretudo, para honrar todos aqueles que se dedicam – ou se dedicaram – ao voluntariado de forma desinteressada, altruísta e abnegada, sobretudo os jovens, que generosamente partilham as suas vidas com valores que lhes exigem sacrifícios mas que os enriquecem em carácter e em formação pessoal. Para além disso, e neste caso, os Bombeiros Voluntários nada ganham, no entanto é a eles que tudo devemos.

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