O valor da honra associado à memória de um ilustre Figueiroense
TóZé McSilva 5 de Março de 2010
Longe de querer lançar ou alimentar polémicas em relação ao busto da Republica, e muito menos movido por uma qualquer obsessão desprovida de carácter racional, ou por uma teimosia motivada unicamente pelos “olhos da alma e do coração”, achei que devia homenagear o Escultor Simões d’Almeida (sobrinho) honrando a sua memória através de uma obra que o imortalizou, o busto da República que executou em 1908.
Defendo a identidade, a memória e o património que nós, Figueiroenses, orgulhosamente possuimos, e dentro das minhas (humildes) faculdades e possibilidades tudo farei para divulgar, preservar e valorizar esses valores, primeiro junto dos meus conterrâneos e sempre que possível ampliando a minha acção numa espiral cada vez mais alargada.
Como tal, e porque me foi lançado o repto (ver comentário deixado no blogue, no post anterior sobre Simões d’Almeida e o busto da República de 1908), venho uma vez mais defender não só a memória mas também a honra desse ilustre Figueiroense, contra os mal-entendidos da história mas sobretudo, contra a subestimação injusta a que a sua extensa e premiada carreira tem sido votada.
Foi a convite do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, Dr. Álvaro Gonçalves, que aceitei, com prazer, tecer a devida homenagem ao Artista no site do Município, facto que ampliei e estendi no meu blogue e no Jornal A Comarca. Isto é, usei todos os meios ao meu alcance para divulgar e premiar esse ilustre Figueiroense, no ano em que passam 60 anos da sua morte (02 de Março de 1950) e em coincidência com as comemorações do centenário da República Portuguesa.
Assim sendo, ficam neste apontamento mais uns quantos esclarecimentos e “achegas” em relação ao busto da República, que orgulhosamente conservamos em nosso poder, por ele assinado e datado (Simões Sob – 1908), facto esse que só por si, deve cambiar a originalidade do mesmo.
O concurso para a realização do busto da República foi lançado no final do ano de 1910 pela Câmara Municipal de Lisboa e teve o seu desfecho em 1911, com a vitória do busto de Francisco Santos. Em 2º lugar ficou Costa Mota (sobrinho) e em 3º lugar Júlio Vaz. Isto é o que consta do resultado do concurso, em que participaram 9 concorrentes, entre os quais também figurava Tomás da Costa. No entanto, António Valdemar, presidente da Academia Nacional de Belas Artes (ANBA), vem dizer em artigo publicado no DN, de 30 de Janeiro último, que “Em 1911, abre-se um concurso público nacional para a criação de um busto da República. Concorrem nove artistas, ganha Francisco dos Santos, outro dos grandes escultores da época, igualmente bolseiro da Academia e que também estudou em Paris e Roma. Simões d’Almeida ficou em segundo com uma peça que partiu da que fez para a câmara, mas que teve de alterar porque o regulamento exigia inéditos”.
Por sua vez, em recente entrevista publicada na Revista “Domingo” do “Correio da Manhã”, Cutileiro afirma, em tom polémico, que “depois foi utilizado o busto de um tipo que nem em terceiro lugar ficou. Se calhar era sobrinho de um ministro, ou equivalente. A cunha clássica, no sentido das influências do poder estabelecido(…)”. O “tipo” a quem ele se refere, subentende-se que seja Simões d’Almeida, cujo busto foi adoptado e largamente difundido pelo País, apesar de não ter ganho o concurso oficial, sendo este facto amplamente conhecido.
Eu tenho que admitir que neste ponto não há coincidência factual, isto é, o Presidente da ANBA diz uma coisa, o resultado do concurso demonstra outra e Cutileiro, por sua vez, vem a publico (de forma pouco elegante) lançar mais uma teoria, (para não falar noutras fontes consultadas, nomeadamente o “Dicionário de Escultura Portuguesa”, que dedica 4 páginas a Simões d’Almeida sobrinho, e que lhe dá como certa a conquista do 2º prémio nesse concurso).
Tenho para mim, que Simões d’Almeida não participou de forma “oficial” no concurso, por causa da cláusula que exigia uma peça original. Porém, só consultando as actas do evento, e que a existirem deverão estar no arquivo da Câmara Municipal de Lisboa (ou noutro), é que ficaríamos devidamente elucidados sobre esse assunto.
No entanto, a “farpa” que Cutileiro tece acerca da cunha que teria beneficiado certo “tipo”, e no caso de se estar a referir a Simões d’Almeida sobrinho, parece-me injusta e infundada. A única cunha que poderia ter valido ao Escultor era o facto do tio, na época, ser o director da Escola de Belas-Artes de Lisboa (tinha sido nomeado para esse cargo em 1905).
Contudo, Cutileiro não tem em consideração alguns detalhes muito importantes: o primeiro busto da República apareceu em 1908 pelas mãos de Simões d’Almeida e como tal não precisava de cunha nenhuma, em 1910 ou 1911, para ser reconhecido (também) por isso. Era um facto consumado, o pioneirismo da criação do busto da República pertencia-lhe por direito. A ele estaria sempre associado o vanguardismo em relação a esse símbolo Republicano. Era difícil suplantar a carga emocional que o tempo cimentara na memória dos Republicanos, que desde 1908 tinham uma imagem emotiva relacionada com o busto criado por Simões d’Almeida, e que a iconologia tendencialmente liga à mulher portuguesa.
Quanto ao busto que se encontra na Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos tem para mim uma explicação simples e lógica:
O tio do Escultor (José Simões d’Almeida Júnior) oferecera anos antes à Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos o modelo em gesso que servira para executar o Cristo crucificado e que se encontra na Sala do Capitulo do Mosteiro dos Jerónimos (onde se encontra o tumulo de Alexandre Herculano). Essa escultura foi, inclusivamente, “estrela” aquando da inauguração da remodelada Igreja Matriz, levada a cabo pelo “traço” do Arquitecto Luís Reynaud (a inauguração foi em 21 de Junho de 1903.) Lá está o Cristo em agonia, modelado em tamanho natural e encarnado (pintado) por José Malhoa, grande amigo do escultor (Tio).
Simões d’Almeida (sobrinho), que tinha no tio uma referência fundamental (reforçada pelo facto de ser também seu padrinho de Baptismo), terá tido gesto idêntico ao do seu familiar, decidindo oferecer ao Clube da sua terra natal o busto da República que executara em gesso, e que acredito ter sido o primeiro ensaio que o Artista modelou em 1908 para a realização do busto, que está no Palácio de S. Bento.
(Deixo aqui o link onde consta a entrevista de Cutileiro ao Jornal Correio da Manhã, para que cada um avalie por si: http://www.cmjornal.xl.pt/Enviar.aspx?channelid=00000019-0000-0000-0000-000000000019&contentid=93429532-89B5-4AEE-B23B-F013F73F5AAA)
O busto original da República Portuguesa, símbolo do republicanismo português, foi modelado em 1908, dois anos antes da proclamação da República, e foi criado por um Artista de Figueiró dos Vinhos: o Escultor Simões d’Almeida (sobrinho).
De 1943 aos nossos dias: “Planos”, “Planos”… e mais “Planos”!
Alpendoradas ou estendidas sobre as encostas, as nossas aldeias serranas beirãs celebravam a véspera de natal de forma comedida e simples, reunindo a familia em volta da lareira, na noite em que nascia o “Deus Menino”. Dos telhados do casario e das chaminés revestidas a xisto, elevava-se o fumo do madeiro que aquecia a consoada, diluindo-se no firmamento da noite orvalhada ou por entre a floresta que orlava a aldeia. Os campos agrícolas, nesta época do ano, encontravam-se em poisio; as sementes esperavam nas arcas para um novo ciclo de fecundação, e neste meio-tempo, os aldeões usufruíam de um descanso forçado mas compensador, junto do fumeiro e do borralho da lareira.
Regista-se, que em meados da década de 60 do século passado, havia em Figueiró dos Vinhos os seguintes estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços: 10 armazéns de lanifícios; 2 armazéns de malhas e atoalhados; 12 estabelecimentos de fanqueiro (comerciantes de fazendas de algodão, linho, lã, etc); 15 mercearias; 3 casas de materiais de construção; 3 serrações de madeiras; 1 indústria de recauchutagem de pneus; 2 fábricas de lanifícios; 2 fábricas de cerâmica; 2 padarias; 5 cafés; 1 hotel; 3 pensões; 5 casas de pasto; 10 sapateiros; 1 correeiro; 1 ferrador; 4 barbearias; 2 casas de artigos eléctricos; 2 ourivesarias; 3 papelarias; 3 farmácias; 1 drogaria; 1 lavandaria-tinturaria; 4 alfaiatarias; 7 modistas; 2 depósitos de tabaco; 3 estúdios de fotografia; 2 estações de serviço de combustíveis; 2 agências bancárias (BESCL e CGD); 4 oficinas de reparação automóvel; 1 Escola de Condução; 1 colónia de férias (do BNU); 4 lagares de azeite; 1 destilaria de aguardente; 3 aviários; 2 talhos; 2 casas de bicicletas; cerca de 50 tabernas; 2 centrais de despachos com ligação à C.P; 8 táxis; 1 empresa de camionagem (“das de maior percurso”); 1 Hospital sub-regional; Escola “Secundária”; Casa do Povo; Tribunal Judicial; Casa da Criança; Estancia de Turismo classificada.
10 de Maio de 1928, banquete de homenagem ao Dr. José Martinho Simões: esta não é somente uma simples e singular fotografia tirada há 81 anos, retratando um grupo de homens, dispostos nas escadas da Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos, em atitude solene, numa diáfana manhã de quinta-feira, num Maio longínquo da segunda década do século passado.
«Primeira sessão preparatória
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